Categorias: Opinião

É aceitável dar choque em um animal para que faça o que queremos?

Você já viu animais criados para consumo sendo “cutucados” com um bastão que parece inofensivo? Usado para exercer controle sobre os animais, obrigando-os a algo contra a própria vontade, esse bastão de choque com duas pontas de cobre é o que chamam também de “ferrão eletrônico” ou “picana elétrica”.

É muito utilizado no Brasil, onde é comercializado livremente e destacado como um “aliado no manejo”. É conhecido como um meio de “conduzir e instigar o animal” nas propriedades, no embarque, no desembarque, em qualquer circunstância que alguém julgue “favorável”. Se o animal resiste, o bastão de choque entra em ação.

Quando vejo esse “instrumento” me pergunto quantas vezes foi utilizado contra bovinos ou suínos. É aceitável dar choque em alguém para que faça o que queremos? Se é cômodo, então devemos?

Estamos sempre criando “instrumentos” para exercer domínio sobre outros animais. O que chamaríamos de agressão se aplicada contra nós, em relação a um animal criado para consumo é apenas um “meio de facilitar uma prática produtiva”.

O olhar que prioriza o benefício humano em detrimento de outras criaturas é sempre um olhar de legitimação da violência. Se um “instrumento” que contém alguém por meio da dor é livremente comercializado, então tem-se a crença de que ele deve ser usado porque seu uso foi institucionalizado.

Mas é a institucionalização que deve guiar nossa consciência ou uma percepção não supremacista sobre violência e consequência? Há algum tempo, vi imagens de animais recebendo choque para embarcarem em um navio, e nenhum olhar ao redor de estranhamento.

Quando o choque, que é uma agressão contra um corpo, não gera reação em quem o vê, o que isso diz sobre a naturalização dessa violência? Diz que não é reconhecida como violência, que o corpo não humano existe para ser seviciado, produtificado.

Devemos continuar sendo tão seletivos em relação ao entendimento de violência? Se sim, é porque a resistência continua vindo do nosso prato.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago