Categorias: Opinião

Devemos ver a morte de animais como “prejuízo”?

Em uma matéria veiculada esta semana sobre a morte por descarga elétrica de um rebanho bovino em uma fazenda leiteira no Rio Grande do Sul é destacado várias vezes o “grande prejuízo” para o “produtor rural”.

É ressaltado em vários momentos que “estima-se prejuízo de R$ 200 mil” e logo fala-se em “grandes perdas”. Quando pensamos em seres humanos, “grande perda” é algo comumente associado à morte de alguém, ao “seu valor enquanto indivíduo”.

Já em relação a animais não humanos usados para fins de consumo, “grande perda” tem caráter estrito de “perda de dinheiro”, já que o animal não é reconhecido como indivíduo, mas como meio de obtenção de lucro.

A “tragédia” não é analisada como algo que abateu-se sobre os animais, mas sobre o “produtor rural”, porque são “seus semoventes”, “seus geradores de produtos até quando for conveniente mantê-los vivos”.

A “tragédia” não é sobre o que são, mas sobre funcionalidade, o que deixam de proporcionar – um produto a ser vendido. A percepção não muda em relação ao significado contextual da palavra “lamento”.

Por isso, não há acentuação da gravidade da morte em relação à experiência de mortandade por “choque”, ainda que seja resultado de negligência de quem os mantinha cativo em espaço inseguro.

O “choque” então é extremamente incômodo porque inviabilizou a exploração, tornou-a impraticável antes do período pré-determinado por quem cria animais com finalidade dominativa.

A imagem de corpos caídos e cabeças atravessadas e sem vida posicionadas sobre uma base concretada evoca uma fragilidade que leva-me a pensar mais sobre o nosso sistema alimentar do que em uma ideia de infausta “eventualidade”.

O “acaso”, com todas as suas construções de pontualidade, quando influenciadas pelo “discurso oficial” sobre a exploração animal, resume nossas ideias à rasura que não reconhece os problemas da estrutura, porque é cômodo pensar que a vida dos “animais é boa” quando não “surgem tragédias que podem entristecer-nos”.

Mas que vida não humana não termina em tragédia se o seu fim premeditado envolve degola? E sobre consumir alimentos de origem animal e lamentar esse fato, que tal considerar também que choque é usual no “atordoamento” de porcos e frangos em matadouros?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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