Há inúmeras práticas em que pessoas orgulham-se de dominar outros animais, e associam isso com força, destreza, habilidade. Mas suplantar um animal vulnerável é uma admirável habilidade?
Treinar para vulnerabilizar mais ainda quem já vive a realidade da vulnerabilidade é uma meritória capacidade? Há quem fale em dignidade no ato de submeter um animal. Mas o que há de digno em favorecer-se da impossibilidade não humana de subverter uma situação de controle sobre seu corpo?
Acredito que tudo que um animal não faria sem o condicionamento/imposição humana, quando um mal para si mesmo, é prática reprovável; e sua realização depende da dimensão de anuência a um supremacismo que determina o que pode ou não ser validado em relação a outras espécies, pouco importando as consequências para quem não é humano – embora, para contestação de antagonismos, dissimule-se que sim.
Há quem acredite que é possível “dominar outros animais de forma aceitável”, usando o relativismo como uma bandeira de condescendência em relação à violência. Há muitas práticas envolvendo a subordinação forçada não humana em que o humano sente-se vitorioso, recebe medalhas, troféus, homenagens, é aplaudido.
São “conquistas” baseadas na capacidade de vulnerabilização em relação ao outro, não humano – na “astúcia” em usar de “recursos” que minorem sua capacidade de resistência. Há um extensivo e variável predomínio de uma somatória de arbitrariedades, que tradicionalizam-se e refazem-se, numa constante construção insidiosa.
Tudo é articulado para que o “humano triunfe sobre o não humano”, reproduzindo a manutenção de sua dominação, e em um cenário onde cria-se uma percepção artificiosa de “disputa”, “duelo”, que são inexistentes, porque o animal subjugado não participa de uma “disputa”, de um “duelo”. Sua presença é impelida, imposta.
Nessas situações, a vitória é somente uma derrota, e cumulativa, toda vez que um animal não humano é submetido à espetaculização de sua vulnerabilidade.
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