A morte de um animal muito jovem pode chocar mais do que a morte de um animal mais velho, mas, se pensamos em animais criados para consumo, qual animal não morre jovem?
A ideia do “animal velho” é uma construção artificiosa, que tem ressignificação no contexto exploratório em que atribui-se uma ideia do “envelhecer” ou de “velhice” a quem não envelheceu, mas desenvolveu características de animal “não jovem” em decorrência de uma condição não natural de vida, de sobre-esforço, de extenuação.
Um animal submetido a uma realidade de produção condicionada e induzida, arbitrária por sua dominação biológica, e que resulta na aceleração cíclica de seu estar no mundo para logo não estar, é um produto inacabado que deixa de sê-lo quando morre – inacabado porque o produto persiste, na provisoriedade ao seu fim e na perpetuidade.
Enquanto vive para não ser, e já não sendo, se sua condição de produto não é primária, o é sua condição como gerador de produtos, e a partir dela grada-se a crença de que o animal não humano que gera um produto é um produto. Então há uma dissolução entre o gerar e o ser, que confundem-se mesmo quando uma forma é viva, o próprio animal, e a outra, subtraída de si, não – o “produto” que surge pela exploração do animal vivo.
É na ausência ou na incompletude da geração de uma forma não viva (produto) que o animal também é submetido a uma ausência irreversível, que marca seu trânsito que não substitui a forma não viva, porque não há equivalência, mas compensa essa ausência por meio da violência que determina seu fim.
Assim o animal é compelido à condição de produto final em relação ao seu próprio “produto” (ausente) que já não pode ser espoliado, não comumente por resistência não humana, e sim por insuficiência, uma incapacidade que é consequência do próprio sistema exploratório.
Então a espoliação transita da obtenção condicionada e forçada para a destituição física de si. A impossibilidade culmina na letalidade, que leva à expropriação do corpo. Essa mortal exploração para compensação comprova que quando um animal deixa de ser o que se deseja (uma vida geradora de produtos), o desejo passa a ser o seu fim (uma morte geradora de produtos).
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