Categorias: Opinião

É coerente acariciar animais e comê-los?

Muitas pessoas que consomem produtos de origem animal não veem estranheza ou sentem desconforto em acariciar as vítimas desse sistema. Até demonstram admiração por elas. Dizem que são belas, mansas e reparam em uma ou outra ação de uma criatura não humana. Veem uma manifestação de individualidade – que pode ser guardada na memória por tempo indeterminado. Pode esmaecer-se em horas e desaparecer amanhã ou depois dependendo do tipo de impressão.

Exibições de “animais de fazenda”, por exemplo, sempre têm público e, avaliando as reações das pessoas, é estranho reconhecer que, saindo de lá, comerão animais como aqueles. Esse poder de dissociação é intrigante e logo imagino alguém dizendo: “O animal que como não é aquele, não é como aquele, não tem nada a ver com aquele.”

Essas palavras não saem da boca, mas é como se saíssem. As pessoas sorriem, divertem-se, alegram-se em companhia de animais. Então é como se tudo desaparecesse, e talvez seja – um renascer que é um anteceder à chegada àquele lugar. Já pensei algumas vezes na ideia de um “apagão de experiência”, que justificaria o esquecimento ou continuidade da desconexão.

Assim que colocam os pés para fora, tudo se apaga e nada resta. O não esquecer também tem relação com impacto retentor da experiência, atribuição consciente de importância, com mais racionalização e mesmo predisposição diante de uma situação.

Até um afago pode ser um ato mecânico de uma curiosidade pouco racionalizada ou banal. Pode haver sentimento de beleza no momento, mas a beleza que a percebemos assim também pode ser “bela somente enquanto a experimentamos”. Depois aloja-se num canto desconhecido da nossa consciência e que não queremos adentrar.

Somos criaturas de experiências contraditórias e não vemos problemas em carregar nossas verdades desconectadas das que fustigam outros, e porque são outros que, num paradoxo constante, vemos tão próximos e tão distantes de nós. Gostamos de suas semelhanças, mas nossos hábitos evidenciam mais a exaltação das dissemelhanças, que permitem neutralizar um reconhecimento não monetário/não consumerista de valor.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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