É coerente acariciar animais e comê-los?

Muitas pessoas que consomem produtos de origem animal não veem estranheza ou sentem desconforto em afagar as vítimas desse sistema. Até demonstram admiração por elas

Muitas pessoas que consomem produtos de origem animal não veem estranheza ou sentem desconforto em acariciar as vítimas desse sistema. Até demonstram admiração por elas. Dizem que são belas, mansas e reparam em uma ou outra ação de uma criatura não humana. Veem uma manifestação de individualidade – que pode ser guardada na memória por tempo indeterminado. Pode esmaecer-se em horas e desaparecer amanhã ou depois dependendo do tipo de impressão.

Exibições de “animais de fazenda”, por exemplo, sempre têm público e, avaliando as reações das pessoas, é estranho reconhecer que, saindo de lá, comerão animais como aqueles. Esse poder de dissociação é intrigante e logo imagino alguém dizendo: “O animal que como não é aquele, não é como aquele, não tem nada a ver com aquele.”

Essas palavras não saem da boca, mas é como se saíssem. As pessoas sorriem, divertem-se, alegram-se em companhia de animais. Então é como se tudo desaparecesse, e talvez seja – um renascer que é um anteceder à chegada àquele lugar. Já pensei algumas vezes na ideia de um “apagão de experiência”, que justificaria o esquecimento ou continuidade da desconexão.

Assim que colocam os pés para fora, tudo se apaga e nada resta. O não esquecer também tem relação com impacto retentor da experiência, atribuição consciente de importância, com mais racionalização e mesmo predisposição diante de uma situação.

Até um afago pode ser um ato mecânico de uma curiosidade pouco racionalizada ou banal. Pode haver sentimento de beleza no momento, mas a beleza que a percebemos assim também pode ser “bela somente enquanto a experimentamos”. Depois aloja-se num canto desconhecido da nossa consciência e que não queremos adentrar.

Somos criaturas de experiências contraditórias e não vemos problemas em carregar nossas verdades desconectadas das que fustigam outros, e porque são outros que, num paradoxo constante, vemos tão próximos e tão distantes de nós. Gostamos de suas semelhanças, mas nossos hábitos evidenciam mais a exaltação das dissemelhanças, que permitem neutralizar um reconhecimento não monetário/não consumerista de valor.

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