Categorias: Pequenas Narrativas

É estranho comer animais

Ilustração: Nina Molitor

Sentou diante de uma mesa vazia na praça de alimentação e observou pessoas com lanches recheados de partes de animais.

Mordiam, mastigavam e olhavam para o que comiam. Mas o que viam? Nada além de algo que, na instantaneidade de suas vontades, desce pela garganta.

“E o que desce pela garganta? Fragmentos que integraram vidas e transformam-se em algo tão estranho a qualquer reconhecimento. Penso em como uma parte que parece tão deliciosa a alguém fez parte de um corpo que abrigava consciência e inerências. Não expressava interesses tão diversos e ao mesmo tempo tão semelhantes aos nossos?”

Imaginou como seria se cada pedaço mordido fosse manifestado em um corpo não humano ainda com vida, em uma mimetização gradual da destruição.

“E que revela a perdição a caminho de um definhamento que acaba em um nada que é forma de rejeição de um tudo, até um desaparecimento que é negação do valor não pecuniário da existência. Por que não combatemos nossos anseios também pelo fim do que não somos nós? Por que insistimos em ser o fim de tantas criaturas? Por que não mudar?”

No centro da mesa havia um folder de um lanche especial com muitas camadas de partes de animais. As cores eram tão vívidas e o papel tão brilhante. Passou os dedos pelas carnes em alto relevo e sentiu maior gradação da inapetência.

“Como tudo favorece uma dissimulação…e porque tantos a desejam e pagam por isso. É o que querem o tempo todo, tanto por um prazer condicionado quanto pela cômoda regularidade de um exercício há muito aprendido.”

De repente, imaginou o lanche transformando-se – duas partes confortáveis, como almofadadas, abrigando folhas cheirosas, que inspiram vida, e um tecido amarelo e leve envolvendo corpos de animais que não estavam mortos, somente dormindo, sem qualquer incômodo ou violação de suas inocências.

“E não temem por suas vidas porque dali serão tirados somente por suas próprias vontades, que também são as nossas em um estado de aperfeiçoamento de consideração que não resume-se a nós.”

 

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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