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Uma pessoa pode matar um peixe, exibi-lo como troféu e ser aplaudida. Se ainda estiver pendurado agonizando, os aplausos também virão. E não há discurso sobre atordoamento, insensibilização, porque a dor do peixe é perceptível, mas tratada na prática como inverossímil – mais do que de outros animais que são vítimas do nosso sistema alimentar.
Há o que há – a exposição de uma criatura tirada de um ambiente natural ou nem natural para ter sua violação máxima celebrada pelo ser humano – como se capturá-la e matá-la fosse uma digna vitória, um exercício em que sua motivação não pode ser desconectada de seu potencial de exibição.
Quanto maior o peixe, maior a satisfação, e ignora-se tudo que diz respeito ao animal, o indivíduo na sua expressão, reconhecida como resistente ou não, porque o ato é sobre nós, não sobre eles. O interesse de um peixe é superado pelo interesse humano, que impõe um exercício de domínio.
Mas o que celebro quando privo um peixe da vida? Minha habilidade de tirá-lo de um espaço de pertencimento ou transição? Minha capacidade de subjugá-lo? Minha vontade de comê-lo quando não é de sua morte que depende minha nutrição nem todos os estímulos do meu paladar?
Onde está a vitória quando a vítima não pode ser reconhecida como alvo de uma derrota? A disputa então é inerentemente maquinação humana, porque o animal não duela, não dispõe-se a um desafio contra quem o agride. Ele busca apenas a desconexão com a situação.
O distanciamento que fortalece contumaz ausência de consideração em relação a esses animais é surpreendente, e permite que o ato de pescar seja visto, em imanente contradição, como pacífico, lazer ou prática relaxante.
E isso, ainda que por associação, não venha da violação do peixe, e sim do ambiente, da calmaria, que é o cenário de intervenção humana. Ou seja, o prazer de pescar é também o prazer de perturbar vidas – de violar, espoliar e matar.
Alguém pode avaliar essa percepção como “exagerada”, e seria previsível, porque peixes são animais a quem comumente nem chamamos de animais, e prezamos pelo “sofrimento mais silente” que manifestam e que podemos dissimular ou apenas ignorar.
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