E se uma mordida na carne fosse uma mordida na nossa carne? Então comeríamos e desapareceríamos, testemunhando e experimentando nossa fragmentação, que também é nosso esmaecimento? Ou desistiríamos pela incapacidade de suportar tal dor e nos afastaríamos da carne em que enxergaríamos a nossa própria?
Então já não seria outra carne, seria a nossa, que não é nossa, proveniente de outro corpo, que conecta-se por efeito de transferência sucedente de impacto, de comunhão que não ansiamos, mas recebemos por urgência de reconexão com a própria vida na sua não individualidade, no seu não supremacismo humano.
Quantas mordidas poderíamos aguentar? Quem sabe dizer? Até onde iriam os mais famintos pela carne de um corpo que não é seu, que ganha não apenas representação pela sua impossibilidade, mas também senciência a partir do corpo que a mastiga? Se caísse no chão, sentindo a dor que não é originalmente minha, quanto esforço eu conseguiria fazer para não abdicar da prevalência desse apetite?
Imagino-me deitado, meus dentes fincados na carne que mordo e na carne que não mordo, que é do meu corpo, e que traz marcas de dentes. E já faltam-me pedaços, que não são os que engoli, mas como se fossem. Então percebo que engoli o outro e eu mesmo, e que a dissociação extinguiu-se, e sua carne some, e com ela parte da minha.
Vamos desaparecendo, o outro que já não estava aqui, e que não era outro, e o eu que deixa estar. E meu apetite pode perseverar? Talvez persevere, como uma ideia, desconectada de possibilidade, se ainda puder transitar a partir de sua ausência que torna-se minha ausência.
Então deixo de ser pela intransigência que é minha resistência, assim como foi a sua. Mas qual de nós teria razão ou legitimidade na obliteração que é a sua e que é a minha? Quem foi privado de escolha? Aqui pode-se pensar na primeiridade, que agora prefiro chamar de primeir-idade, se considero as associações entre as sensações e os alvos de vitimação.
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