Em “Até os Ossos”, canibais refletem sobre a vida bovina em um matadouro

No filme “Até os Ossos”, de Luca Guadagnino, sobre dois jovens, Maren (Taylor Russell) e Lee (Timothée Chalamet), que são canibais, não por opção, há uma cena em que eles invadem um matadouro e vão para o curral onde as vacas são mantidas antes de serem mortas no dia seguinte.

Em uma passarela sobre o curral, Maren e Lee as observam. Maren reflete sobre a vida dos animais antes de serem enviados para aquele lugar. “Você já pensou que cada uma delas tem uma mãe e um pai, irmãos, primos, filhos, até amigos?”

Nesse momento, o que interessa a Maren é o que é relação e familiaridade sobre aqueles animais, não na relação com aquele lugar, mas com a vida e os laços que são construídos também por outros seres sociais, até que são, abruptamente, rompidos.

À vaca é dada a vida que quando conveniente será tirada. Há um constante encontro para um desencontro, se famílias surgem somente para que sejam desfeitas. No curral onde estão Maren e Lee há constantes mugidos, e também como lamentos, e uma escuridão que envolve o espaço.

A vida que existe ali, e para que não saia dali, é vida impossível na relação com o que está fora dali, e não por escolha desses animais. As vacas podem ser percebidas como solitárias, nos limites impostos a elas, reduzidas a um corpo no arbitrário resguardo para a morte, numa noite que em “Até os Ossos” é a última.

Um funcionário do matadouro coloca música para acalmar as vacas que serão mortas, mas os mugidos no curral prevalecem sobre a música. Há inquietude, e mesmo quando não há, quem pode afirmar que isso é aceitação?

Comportamentos oscilam, mugidos continuarão, mas não das mesmas vacas. Serão outras que darão continuidade ao que lhes é natural como expressão.

Entre humanos e não humanos, os mugidos “ficam de fundo”, porque é onde os interesses desses animais são comumente colocados – atrás dos interesses humanos e também somente na relação com os interesses humanos.

“Elas falam”, comenta Lee. “Escute.” Então ouvimos as vacas que não vemos, e logo não são mais ouvidas, porque são criadas para o silêncio. É um “falar” como reação ao lugar, uma queixa que não será atendida, uma resposta de um corpo vivo que não prevalecerá.

O filme está disponível no Prime Video.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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