Categorias: Opinião

É estranho observar aves em um galpão e saber que logo serão mortas

É estranho observar aves em um galpão e saber que logo serão mortas. Há algum tempo, quando entrei em um criadouro de frangos, senti um cheiro de amônia e ardência nos olhos. Havia um acúmulo de fezes que se amontoavam esparsamente no chão.

Lembrei-me de como as pessoas reclamam ao sentirem o cheiro dos caminhões que transportam frangos, e julgam que aquele cheiro é dos frangos: “Que cheiro horrível de frango!”, embora não seja do frango, mas do que é imposto aos frangos, e não se compara ao cheiro mais intenso do criadouro de frangos ou de uma granja de ovos.

Tanto o cheiro no caminhão quando no galpão ou na granja é determinação ou implicação do consumo de produtos animais – é consequência do desejo pela arbitrária eficiência. E o que determina a eficiência senão o apetite humano como imposição sobre corpos não humanos?

Quem não conhece o impacto do contato constante de galináceos com a amônia pode não saber que frangos ou galinhas adoecem diante dessa exposição, desenvolvem problemas respiratórios e bolhas no peito e feridas nos pés. Também podem morrer de forma mais precoce do que já morreriam pelo que isso potencializa.

A primeira vez que vi uma galinha lacrimejando em uma granja, sem conseguir manter os olhos abertos, fui informado de que isso também tem relação com a exposição à amônia contida nas fezes do animal, que não eram removidas com a devida regularidade, e que a galinha que eu observava estava quase cega.

Pessoas podem achar normal também que frangos fiquem sobre as próprias excreções (até 80% viram amônia). Mas isso não é o animal sendo não higiênico, e sim não conseguindo sustentar o peso do corpo por causa da desproporcionalidade gerada pelo rápido ganho de peso, que impõe dores severas nas articulações.

Ascite, que é um inchaço abdominal associado à doença hepática, e problemas cardíacos, também não são citados como consequência da “eficiência na produção de carne de frango”. Isso não deveria surpreender quando o alvo de consumo é uma criatura criada para crescer e morrer em  40 dias. Como ignorar que o apetite humano por um animal e/ou pelo que se deseja tirar dele pode ser tão destrutivo?

Leia também “Sobre a miséria de ser um frango“, “Não é estranho que o frango seja mais tocado morto do que vivo?” e “Frangos e galinhas vivem pouco porque o consumo humano impede que vivam mais“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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