Categorias: Opinião

Exploração animal é uma grande contradição

Foto: Tommaso Ausili

A lógica antropocêntrica sobre muitos animais é que eles são semelhantes a nós quando a exploração deles depende da semelhança e são diferentes de nós quando a exploração depende da diferença.

Como não reconhecer nisso uma contraditória conveniência? Isso significa que estamos sempre dispostos a reconhecer ou dizer o que queremos sobre outros animais desde que nos “beneficie”.

Por outro lado, sequer consideramos que esses mesmos argumentos se voltam contra nós na fragilidade de nossas justificativas para explorá-los. Se aquele que é diferente é também semelhante, como usar a diferença como razão para a não consideração se, ponderando sobre as duas afirmações, a diferença está no mesmo indivíduo que tem em si a semelhança?

Se a diferença justifica uma exploração que seria inconcebível no reconhecimento da semelhança, a semelhança então não é uma inexistência, mas um exercício de conveniente inconsideração.

Assim, o que fazemos é não pensar nesses animais como formas totais e sim parciais, fragmentadas, como se a diferença pudesse ser separada da semelhança para cada finalidade.

Então qualquer argumento baseado na diferença pode ser refutado também pela semelhança. Não que a consideração deva depender essencialmente do que temos em comum com esses animais.

Afinal, isso seria buscar nossa projeção humana, ou parte dela, neles. Mas isso ratifica que os argumentos não se sustentam diante do ato de considerar para além da finalidade humana quem são esses animais.

Um animal simbólico dessa contradição é o porco. Ele é alvo tanto da consideração por isolamento da diferença quanto da semelhança. Da diferença porque é o que leva a reduzi-lo a algo comível, por um constante exercício de distanciamento em relação a nós para a garantia dessa continuidade.

Ao mesmo tempo, é vítima por semelhança, que leva a submetê-lo, por exemplo, a experimentos, e que tem como justificativa a percepção que não pode ser consolidada na finalidade de comê-lo.

Os dois usos do porco podem ser colocados em conflito sobre sua exploração, porque trazem elementos antagônicos, e colocando-os apenas reforçamos o quanto não apenas é errado como maliciosamente arbitrário o que é feito com esses animais.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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