É estranho o uso do termo “cabeça de gado”, que não existe para pensar no animal, mas na arbitrária finalidade em relação ao animal. Não falamos em cabeças de humanos nem em cabeças de animais por quem se tem algum tipo de consideração.
Quem fala em “cabeças de cachorro”? “Cabeças de gato”? Claro que alguém pode dizer que o motivo é que não criamos esses animais para fins de consumo, embora cães também sejam criados para obtenção de lucro.
No entanto, destina-se a referência como “cabeça” exatamente para aqueles que em breve estarão sem cabeça, sendo reduzidos a produtos. O animal como “cabeça” é o animal como “unidade”, que existe para ser somente “unidade” voltada ao lucro.
Se fosse para o animal viver, não para ser criado para morrer, não se usaria o termo “cabeça de gado”. Então falar em “cabeça de gado” é falar no animal já pensado como não vivo, e se pensado como vivo, como provisório. A “cabeça” é o comercializável, vendável, que deve ser considerado somente pelas relações de lucro-consumo.
A “cabeça” deveria evocar-nos mais o que é tirado do animal, não a normalização do que é imposto e obliterado do animal. Se converso com algumas pessoas e pergunto o que pensam quando ouvem “cabeça de gado”, logo dizem que pensam em carne.
Pesquisas que apresentam dados sobre a criação de bovinos no Brasil, programas de TV, matérias, etc, sempre referem-se a bovinos como “cabeças de gado”. Isso ocorre até mesmo em matérias de acidentes com caminhões que transportam bovinos. É como dizer “não pense no animal que morreu como o ‘animal que é’, mas como animal que se tem lugar como animal é somente pelo que sobre ele é vender, lucrar, consumir”.
“Cabeça de gado” é referência normalizada a um estado de coisificação. Isso faz pensar no contraditório da “cabeça de gado” em relação com privação e morte, porque a ideia da “cabeça” tira do animal o sentido do que sobre ele não pode ser pensado como lucro e consumo, evidenciando um paradoxo.
Há no termo “cabeça de gado” uma incompletude e uma ausência, porque “cabeça de gado” é sobre o peso do interesse humano sobre esses animais. Quando aceita-se isso, é porque não há o desejo de remover tal peso.
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