Cérebro de galinha não é muito estudado, então muita coisa passa despercebida pela gente, não por ela, sobre a percepção dela

Deram nome de Foguete pra galinha. Nome estranho pra bichinha, mas é melhor que morrer, né? Foi o que disseram. Vendida como poedeira, não conseguia botar mais. Até tentou, coisa de sentido.

Gritaram que era trapaça, “refugo de granja” e a sentença foi dada. Vai morrer no sábado e mergulhar no marinado pra ser sepultada na panela no domingo. No lugar das velas, tomatinhos-cereja, que não iluminam, mas deixam a boca úmida.

Sábado cedo, parecia que já sabia e sabia. Bichinha enfiou-se numa quiçaça e ficou encolhida. Tinha ouvido facão, tilintadas. Um dia, pareceu até música, só aquele dia também, porque ela viu quando um porco sumiu.

Reapareceu assando no quintal enquanto arrancavam tiras com faca. Parecia e não parecia. Estava estranho. Mudou de cor, sem pelo, sem olho, com pé torcido, meio derretido. Cheiro diferente. Não era de porco – de tempero, ervas. Ou era sem ser, vai saber. Depende de quem vê.

“Estátua de dor” poderia ser o nome, com “duração da gula” como prazo de validade. Não dura. Acredito que Foguete sabia. Cérebro de galinha não é muito estudado, então muita coisa passa despercebida pela gente, não por ela, sobre a percepção dela.

Grupelho iniciou a captura. Quem achasse Foguete poderia destroncar o pescoço. Na quiçaça, via passadas e pés. Tremia e ciscava, ciscava e tremia. Vontade de ciscar virou de esburacar. Com estiagem, só fazia poeirinha, que virou cortina.

Alguém viu. Bichinha ofegava. Trezentas batidas por minuto? Nem perto. Barulho doído. Não conseguia mais fugir, só tremer. Umedeceram as penas com água. Pouco a pouco, terror foi diminuindo. Tempinho depois, dormiu e ninguém mais viu.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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