Categorias: Opinião

Galinhas não costumam ser vistas como fêmeas

Foto: Selene Magnolia

Galinhas não costumam ser vistas como fêmeas, mas como “criaturas que botam ovos”. Se perguntamos o que vem à mente quando pensam em galinhas, a maioria dirá “ovo”, outro citarão algum preparo que envolva carne de galinha – ainda mais se sobre isso há uma evidenciação de memória gustativa.

Enfim, dificilmente alguém fará uma associação imediata desses animais com características de “não consumo”, já que o predomínio é da “manifestação de consumidor”, imerso em seus hábitos e predileções.

Mesmo que um animal criado para consumo seja identificado como macho ou fêmea (o que determina seu descarte no nascedouro ou subjugação para finalidade específica), isso não é visto como relevante pelo consumidor, que identifica-se com produtos, não com animais.

O que mais interessa a ele é o que é gerado pelo animal, e as inerências, necessidades e vontades não humanas não são algo que, por condicionamento alimentar, incita-lhe atenção. Por isso a condição do animal lhe é estranha – porque é algo com o qual não reconhece conexão, embora seu consumo seja o que paute a vida (não vida) de tal animal.

O que significa a vida das galinhas para nós? Se comemos ovos, o que nos interessa é a disponibilidade, não sua relação pregressa com a vida que o gerou a partir do processo de ovulação.

Mas se o ovo que comemos, e do qual não temos interesse em abdicar, é proveniente de uma fêmea que bota 350 ovos por ano, que equivale a 12 a 35 vezes mais ovos produzidos em comparação com uma galinha selvagem, o que isso nos diz sobre o domínio que exercemos sobre sua condição biológica?

Você classificaria como natural a propalada ideia de “produção pacífica e orgânica” que envolve, por paradoxo, uma antinaturalidade ingênita? O que dizer da grande produção de ovos, que responde pela maior parte dos vendidos e consumidos?

Há seleção, subjugação por engaiolamento de fêmeas, uma vida que não ultrapassa 20% da expectativa média em condições de não exploração; e descarte em caso de ineficácia produtiva ou enfermidade custosa. Enfim, se consumidores somos desses produtos, o que somos das galinhas senão causa de seus sofrimentos?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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