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O que é a carne?

Foto: AE

O que é a carne? Sempre que falamos em carne é mais comum uma primeira associação com a carne bovina, também chamada de “carne vermelha”. É como se fosse a carne legitimada como carne, e também como se não houvesse nada por trás dessa carne – como se carne fosse somente carne.

Ainda que se diga “carne bovina”,  a ideia de “bovina” pode não trazer nenhuma significação especial, como se o ser “bovino” fosse somente um meio e que surge como a carne – sem história precedente, sem construção de ações que permitam associação com os tantos significados possíveis do qual dependem a carne antes de sua viabilização como produto.

A própria ideia da carne é como ideia vaga, de falta de conexões. Sobre isso, cito a ideia da “produção de carne”, que na realidade não é “produção” se a carne existe como parte essencial do corpo de um animal.

O que existe, e inerente ao processo de produtificação, é a obliteração e o descarne que levam ao processamento do “resultado da engorda”. Então a carne é, por imposição, extraída de um corpo violado, morto, e submetida a tipos variáveis de processamento que levarão à disponibilidade consumerista.

Então a matéria-prima para o que chamamos de indústria da carne vem da apropriação que é também expropriação de corpos, em que as partes comestíveis de animais vitimados pela violência institucionalizada são separadas daquelas que não são.

E essas são destinadas a outras finalidades, também conhecidas como subprodutos ou matérias-primas residuais ou tipificadas como de baixo custo – ainda que o custo não possa ser considerado baixo, pelo menos sob perspectiva não monetária. Basta não ignorarmos que refiro-me a uma indústria indissociável da mortandade.

Porém, meu objetivo não é apenas situar a questão bovina. Comecei abordando-a porque é facilmente associável quando fala-se em carne, que logo evoca mais uma ideia de “vermelha”, “bovina”. Isso também é algo que vejo como problemático, porque a ideia de uma menor associação com carne em relação ao consumo de outros animais ou derivados desses animais são favoráveis às dissimulações engendradas pelo especismo.

No Brasil, porco costuma ter uma associação com carne que vem logo depois da bovina, ainda que seja comum não usar o termo geral “carne de porco”, mas sim citar partes de porco. Ainda hoje, não é difícil encontrar pessoas que não reconheçam determinadas partes de um porco, por exemplo, como carne – como se não apenas surgissem de uma desconexão com o animal, mas como se qualquer associação fosse impossível.

“Temos pastel sem carne, temos de presunto”, já ouvi, que é reprodução de dissociação usada de forma extensiva. E sobre os frangos? Não é tão comum a referência ao consumo de frangos como “carne de frango”, ainda que seja classificada como “carne branca”. Independente de qual parte seja analisada, é como se quando se falasse em “comer frangos”, para muitos fosse como falar em “não comer carne”.

“Hoje, não comi carne, só comi frango”, já ouvi. A dissociação entre a carne o frango, por um lado, leva à ideia de um frango como não cárneo, e sabemos que a vida animal é indissociável da carne na sua condição corporal; por outro lado, “comer frango” é conclusão acertada, já que come-se parte de um animal, logo um animal. Porém, não é percepção muito bem racionalizada se há uma dissonância entre “comer frango”, visto como produto, e “comer frango”, visto como o animal que é.

Afinal, posso dizer que como frango e não racionalizar a implicação desse consumo, que depende de ver o animal como uma criatura privada de sê-lo com brevidade. Analisando a realidade em diversos outros países, percebo também que é comum a associação-mor da carne com o boi, o gado bovino.

Isso leva a equívocos porque quando alguém diz que deixou de comer “carne” podemos imaginar, quando consideramos todos os animais mortos como sujeitos cárneos, que esse alguém já não come mais animais. Porém, o que é comum, pode ser que tenha abdicado somente da “carne bovina”, e assim continua comendo outros animais.

Se a abstenção tem motivação ética, quem age assim favorece uma percepção especista sobre a questão cárnea – porque transmite uma mensagem de que come outros animais que não vê como “cárneos”, superficializando a dimensão de impacto de suas realidades excluindo-os de uma conclusão sobre a carnalidade de suas próprias condições.

É como dizer que “escolhi deixar de comer o animal que julgo mais cárneo e aos poucos deixo de comer os outros que posso considerar não cárneos ou menos cárneos.” Essa percepção, que é ilógica partindo da percepção de que a carne é inerente à vida e sem ela um animal não vive, pode gerar uma concepção de escalas especistas de consideração.

Não digo que uma pessoa deixar de consumir um tipo de carne não é um válido e importante passo, mas a maneira como entendemos e validamos isso, quando alegamos motivação ética, pode fazer com que outras pessoas compreendam que alguns animais têm uma “condição cárnea” mais latente do que outros – e que podem até mesmo não ser reconhecidos como cárneos dentro do nosso círculo de consideração.

Os peixes, por exemplo, são alvos tradicionais dessa imponderação. Não é tão difícil encontrar alguém alegando ser vegetariano enquanto consome peixes. E não é o peixe um ser cárneo? Como não reconhecer como carne as partes que as pessoas consomem desses animais?

E a que tipo de interesse isso atende? Tal realidade também explica porque os peixes são as maiores vítimas aquáticas do nosso sistema alimentar e, em dimensão global, em número de indivíduos, superam de longe até os frangos, que numericamente são os mais prejudicados pela pecuária.

Em síntese, qualquer referência ao consumo de partes cárneas de animais como se não fossem carne obstaculiza uma compreensão mais adequada sobre o impacto que geramos em vidas não humanas reduzidas a produtos – porque a ideia da “não carnalidade”, que opõe-se ao intrínseco da natureza animal e evoca também um “não corpo”, é favorável ao especismo endossado no nosso sistema alimentar.

David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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