O cineasta australiano George Miller é mais conhecido como o criador da franquia “Mad Max”, iniciada em 1979. No primeiro filme, quando Max Rockatansky (Mel Gibson) está prestes a ver o seu mundo em ruínas, o ápice da idealização familiar é consagrado pela chegada de um cãozinho em um cenário bucólico e onírico – um microcosmo da realização e da felicidade.
Em “A Caçada Continua”, de 1982, a humanidade já não lhe inspira nada de bom, e o seu único vínculo familiar é com outro cãozinho, com quem divide a parca comida. E um exemplo de que para ele a relação com um animal é prioritária é a cena em que o cãozinho tem prioridade sobre a comida em detrimento do seu “novo amigo”, o Capitão Gyro – que fica com as sobras deixadas pelo animal; o que acentua também o seu estado de descrença no ser humano.
A relação de companheirismo entre o cão e Max é a prova de que ele não está morto para a vida e para o mundo. Há compaixão, há esperança. Mas o seu mundo se desfaz quando, movido pela descrença no ser humano, e entregue a um sentimento de ostracismo e misantropia, ele decide se afastar novamente dos humanos. E paga um preço por isso. Max cai em uma emboscada, sofre um acidente e o seu único e verdadeiro companheiro, o cão, é morto com um disparo de balestra. O seu mundo é destruído mais uma vez e ele é salvo pelo Capitão Gyro.
Em “Além da Cúpula do Trovão”, de 1985, já não há cachorro, e aparentemente nenhum tipo de esperança – apenas sobrevivência pela sobrevivência. Porém, no terceiro filme os porcos são mais importantes do que os seres humanos, ainda que com um viés utilitarista, já que a energia da cidade é gerada a partir das fezes dos suínos. Quem fere ou mata um dos porcos, que vivem em um ambiente que lembra as fazendas industriais, pode ser condenado à prisão perpétua ou à morte em Bartertown.
Os suínos não são comida, nem podem ser vistos dessa forma, e a alimentação deles é prioritária. A subsistência e o equilíbrio dependem mais da existência não humana do que humana, como numa referência à nossa realidade planetária – já que os ecossistemas são comprometidos pela má ação humana que prejudica a vida silvestre; e com isso, amargamos consequências como a degradação do meio ambiente e o aquecimento global em decorrência das mudanças climáticas.
Em “Estrada da Fúria”, de 2015, o Max de Tom Hardy é tão cético quanto o de Mel Gibson, mas o seu protagonismo rapidamente é compartilhado, diferente dos outros filmes da franquia. Em relação à exploração, o que chama atenção é que as mulheres assumem posição análoga a das vacas leiteiras. A maioria serve apenas a um propósito – procriar e fornecer leite – um retrato da objetificação. E são mantidas em uma área separada, onde são condicionadas a atenderem as necessidades do vilão Immortan Joe.
Basicamente, são produtos e meios para um fim. Assim como ocorre com as vacas leiteiras que são exploradas a vida toda até serem encaminhadas para o matadouro, no filme de George Miller não é diferente. O valor das mulheres na cidadela é proporcional ao que elas podem proporcionar. E se já não podem, já não há uma atribuição de valor.
Outra curiosidade sobre o filme é que os figurinos dos atores e dos figurantes foram isentos de matéria-prima de origem animal. No Oscar 2016, a figurinista Jenny Beavan subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Figurino usando uma jaqueta de couro vegana e levando uma mensagem contra o uso de artigos de origem animal.
“Mad Max” tem o potencial de despertar ponderações sobre a nossa relação com os animais e sobre a exploração animal, mas a maior mudança de consciência promovida por um dos trabalhos de George Miller veio com “Babe”, de 1995, dirigido por Chris Noonan.
A história do porquinho sonhador, que fez muita gente refletir pela primeira vez sobre a senciência, inteligência e personalidade curiosa dos animais, foi escrita pelo cineasta australiano, que assina o roteiro da obra. O filme influenciou o ator James Cromwell, que interpreta o fazendeiro Arthur Hoggett, a se tornar vegano e a se engajar no ativismo em defesa dos animais.
Algumas cenas do filme se tornaram emblemáticas. Quando o casal Hoggett recebe os familiares para a ceia de Natal, uma galinha pergunta: “E esse rebuliço todo, o que será?” “A gata disse que eles chamam de Natal”, responde o cavalo. “Natal, é? A ceia de Natal, é? Ceia quer dizer morte, morte, carnificina! Natal é carnificina! Natal é carnificina!”, grita o pato em desespero.
O que pouca gente sabe também é que George Miller, que levou muita gente a refletir sobre o consumo de animais, já era vegetariano quando escreveu “Babe”. No entanto, ele sempre preferiu que o filme fosse visto como uma obra sobre a perda da inocência e a vontade de viver.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Visualizar comentários
"Produzir proteína de trigo significa arar a terra de pastagem e plantá-la com sementes. Aração e colheita matam pequenos mamíferos, cobras, lagartos e outros animais em grande número. Além disso, milhões de ratos são envenenados em instalações de armazenamento de grãos a cada ano." A questão é, quão fofinho e bonitinho um animal tem de ser para o ser humano se importar com ele?