Como o criador de “Mad Max” fez muita gente refletir sobre o consumo de animais

George Miller também escreveu o roteiro de "Babe", que influenciou o ator James Cromwell a se tornar vegano

O cineasta australiano George Miller é mais conhecido como o criador da franquia “Mad Max”, iniciada em 1979. No primeiro filme, quando Max Rockatansky (Mel Gibson) está prestes a ver o seu mundo em ruínas, o ápice da idealização familiar é consagrado pela chegada de um cãozinho em um cenário bucólico e onírico – um microcosmo da realização e da felicidade.

Em “A Caçada Continua”, de 1982, a humanidade já não lhe inspira nada de bom, e o seu único vínculo familiar é com outro cãozinho, com quem divide a parca comida. E um exemplo de que para ele a relação com um animal é prioritária é a cena em que o cãozinho tem prioridade sobre a comida em detrimento do seu “novo amigo”, o Capitão Gyro – que fica com as sobras deixadas pelo animal; o que acentua também o seu estado de descrença no ser humano.

A relação de companheirismo entre o cão e Max é a prova de que ele não está morto para a vida e para o mundo. Há compaixão, há esperança. Mas o seu mundo se dilui quando, movido pela descrença no ser humano, e entregue a um sentimento de ostracismo e misantropia, ele decide se afastar novamente dos humanos. E paga um preço por isso. Max cai em uma emboscada, sofre um acidente e o seu único e verdadeiro companheiro, o cão, é morto com um disparo de balestra. O seu mundo se dilui mais uma vez e ele é salvo pelo Capitão Gyro.

Em “Além da Cúpula do Trovão”, de 1985, já não há cachorro, e aparentemente nenhum tipo de esperança – apenas sobrevivência pela sobrevivência. Porém, no terceiro filme os porcos são mais importantes do que os seres humanos, ainda que com um viés utilitarista, já que a energia da cidade é gerada a partir das fezes dos suínos. Quem fere ou mata um dos porcos, que vivem em um ambiente que lembra as fazendas industriais, pode ser condenado à prisão perpétua ou à morte em Bartertown.

Os suínos não são comida, nem podem ser vistos dessa forma, e a alimentação deles é prioritária. A subsistência e o equilíbrio dependem mais da existência não humana do que humana, como numa referência à nossa realidade planetária – já que os ecossistemas são comprometidos pela má ação humana que prejudica a vida selvagem; e com isso, amargamos consequências como a degradação do meio ambiente e o aquecimento global em decorrência das mudanças climáticas.

Em “Estrada da Fúria”, de 2015, o Max de Tom Hardy é tão cético quanto o de Mel Gibson, mas o seu protagonismo rapidamente é compartilhado, diferente dos outros filmes da franquia. Em relação à exploração, o que chama atenção é que as mulheres assumem posição análoga a das vacas leiteiras. A maioria serve apenas a um propósito – procriar e fornecer leite – um retrato da objetificação. Inclusive são mantidas em uma área separada, onde são condicionadas a atenderem as necessidades do vilão Immortan Joe.

Basicamente, são produtos e meios para um fim. Assim como ocorre com as vacas leiteiras que são exploradas a vida toda até serem encaminhadas para o matadouro, no filme de George Miller não é diferente. O valor das mulheres na cidadela é proporcional ao que elas podem proporcionar. E se já não podem, já não há uma atribuição de valor.

Outra curiosidade sobre o filme é que os figurinos dos atores e dos figurantes foram isentos de matéria-prima de origem animal. Inclusive no Oscar 2016, a figurinista Jenny Beavan subiu ao palco para receber o prêmio de Melhor Figurino usando uma jaqueta de couro vegana e levando uma mensagem contra o uso de artigos de origem animal.

“Mad Max” tem o potencial de despertar ponderações sobre a nossa relação com os animais e sobre a exploração animal, mas a maior mudança de consciência promovida por um dos trabalhos de George Miller veio com “Babe”, de 1995, dirigido por Chris Noonan.

A história do porquinho sonhador, que fez muita gente refletir pela primeira vez sobre a senciência, inteligência e personalidade curiosa dos animais, foi escrita pelo cineasta australiano, que assina o roteiro da obra. O filme influenciou o ator James Cromwell, que interpreta o fazendeiro Arthur Hoggett, a se tornar vegano e a se engajar no ativismo em defesa dos animais.

James Cromwell participando de um resgate de perus que seriam abatidos no ano passado (Foto: DxE)

Algumas cenas do filme se tornaram emblemáticas. Quando o casal Hoggett recebe os familiares para a ceia de Natal, uma galinha pergunta: “E esse rebuliço todo, o que será?” “A gata disse que eles chamam de Natal”, responde o cavalo. “Natal, é? A ceia de Natal, é? Ceia quer dizer morte, morte, carnificina! Natal é carnificina! Natal é carnificina!”, grita o pato em desespero.

O que pouca gente sabe também é que George Miller, que levou muita gente a refletir sobre o consumo de animais, já era vegetariano quando escreveu “Babe”. No entanto, ele sempre preferiu que o filme fosse visto como uma obra sobre a perda da inocência e a vontade de viver.

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