Categorias: Opinião

Há algo de pacífico em alimentar-se de animais?

Foto: Cow Doc/Andrea Arnold

Digo que há algo de pacífico em alimentar-me de animais e mostro os poucos animais que crio para minha alimentação. Claro, se mato eles, nada de pacífico há nisso. Mas e sobre aqueles que não mato?

Alego que, diferente de outros criadores, intenção nenhuma tenho em matar, por exemplo, a galinha que chamo de “fornecedora de ovos” e a vaca de “fornecedora de leite”. Por outro lado, como a vaca pode dar leite sem que esteja em fase de lactação? E não é da geração de vida que depende essa fase? Já que refiro-me a um alimento que existe para nutrição de filhotes não humanos.

É negável o condicionamento e o controle exercido sobre seu ciclo de vida? E quanto aos ovos, se uma galinha bota um número x por ano, e digo que é uma “bota natural”, como posso insistir nessa afirmação se tal galinha é resultado de “aperfeiçoamento genético” em benefício humano e a escolhi por isso? A exceção são as galinhas silvestres. Como contestar o condicionamento precedente?

Todos esses animais domésticos envelhecerão e terão uma morte natural? Posso dizer que sim, mas não é a partir do consumo de produtos de origem animal que sinalizo que está tudo bem em consumi-los? Não há uma relação de funcionalidade determinada por mim quando escolho um animal pensando no tipo de benefício que posso obter?

É boa ideia em oposição à exploração animal fazer isso? Sei que antes da industrialização da “produção animal” essa era a realidade comum, mas não foi a demanda e o crescente aumento da população, assim como do seu apetite, que trouxe-nos até a atual realidade?

Não vejo como defender o consumo de alimentos ou produtos de origem animal como boa ideia, independente de contexto e sistema, porque alimentar-se de animais ou encará-los como criaturas que têm “algo a fornecer” é dizer que tal alimento ou produto é nosso ou pode ser nosso.

Valorizo muito o caráter simbólico da abstenção do consumo de produtos de origem animal, porque envia uma mensagem clara de que a não permissividade é valiosa para reconhecer a importância de que devemos dissociar os animais da ideia de meio de obtenção de alimentos.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago