Alguns jornais divulgaram que “mil gatos foram resgatados na China antes de serem abatidos e vendidos como carne de porco e de carneiro”. Muitas pessoas reagiram com indignação e questionaram como “os chineses podem fazer isso”. Ou seja, ignoraram completamente que foram chineses que resgataram esses animais e com participação do poder público.
Ademais, a reação de muitos foi algo como: “Se é porco e carneiro, está tudo bem, desde que não sejam os animais que escolhemos para não explorar e comer.” Como é comum, muitos que comemoraram o resgate de mil gatos em outro país, e que não serão comidos, não veem problema em não atribuir importância a bilhões de animais mortos para consumo por ano no Brasil.
Isso transmite uma mensagem muito simples – não olhar para o próprio lado. Afinal, ao fazer isso, não precisamos mudar nada em nós. Como isso poderia ser mais conveniente? Criticar uma situação envolvendo animais contra quem você repudia a violência enquanto financia a violência contra outros é algo que deveria ser seriamente ponderado.
É sempre muito fácil olhar com reprovação e ojeriza para uma situação que envolve a morte de animais que tem nossa prévia reprovação do que olhar para os nossos hábitos e refletir sobre como contribuímos com a violência evitável e desnecessária contra uma enormidade de animais. Jamais deixo de considerar a reflexão de que comer animais é afirmar que animais são comíveis.
O que muitas pessoas fazem ao defender a proteção de alguns animais e agir de forma indiferente à miséria de outros é colocar um obstáculo ao fim dessa matança, porque é uma reação previsível quando se recusam a deixar de participar dela por meio do consumo.
Se no mesmo dia é publicada uma notícia de que milhões de frangos foram abatidos no Brasil em 24 horas, difícil será encontrar indignação tão expressiva. Agora reflita por um momento como a importância da vida do frango para o frango pode ser menor do que a importância da vida do gato para o gato ou do cão para o cão.
O mesmo pode ser dito sobre todos os animais que escolhemos explorar e matar. Já deveríamos ter superado a crença de que “há animais para comer e animais para defender”.
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"Criticar uma situação envolvendo animais contra quem você repudia a violência enquanto financia a violência contra outros é algo que deveria ser seriamente ponderado". É exatamente a provocação que fiz em relação à ração para cães e gatos em outro texto aqui publicado.
Qual sua reflexão para esse dilema ético, David?
Um curiosidade, quase anedota: num aplicativo de relacionamento há um "teaser" em que a pessoa pode continuar a frase "A causa que eu defendo é..." para atribuir uma característica à sua bio no app.
Uma mulher escolheu esse teaser (há vários outros) complementando com a frase "os animais".
Só que nesse app a pessoa também pode dizer sua escolha alimentar:
vegetariano/a
vegano/a
"como de tudo" e, pasme
'sou chegad@ num bacon"
A referida mulher colocou "Como de tudo".
É aquele caso de uma mulher diante de um balcão de um açougue:
https://www.vista-se.com.br/na-fila-do-acougue-mulher-brasileira-com-camiseta-de-apoio-a-causa-animal-acende-debate/