Não é “apenas” a ausência de um justo reconhecimento da senciência animal não humana que é utilizada como meio de explorar animais para diversos fins.
A ideia da irracionalidade animal não humana também é problemática e favorável à subjugação não humana, porque é ainda uma forma de não atribuição de capacidades consideradas moralmente.
Essa crença é incutida desde cedo, quando desenvolve-se a ideia do supremacismo humano ao “aprender” que “somos os racionais” enquanto os outros que “não são” devem ter suas vidas submetidas aos interesses humanos.
A ideia da “irracionalidade animal” favorece o domínio humano porque cria também uma artificialização da “importância de controle” sobre outras espécies e uma falsa ideia de exercício de guardianidade.
Como dizer que o conceito de racionalidade não serviu à elevação do ser humano e inferiorização de outros animais? Que contribuiu para a perpetuação de ideias de valores ínfimos para vidas não humanas.
Será que tudo que fazemos expressa o que definimos sobre nossa racionalidade como habilidade? Tudo que os outros animais fazem são expressões de irracionalidade? Não somos perpetuadores de uma conveniente imperceptibilidade?
Somos nós que, “dotados de razão e discernimento”, nos colocamos em posição de fazermos o que quisermos com outros animais, incluindo decidir quem deve ou não viver em liberdade, quem deve ou não ser perturbado por nosso exercício de dominância, violência e castração de experiências.
Centenas de anos antes da era comum, Teofrasto já havia chamado a atenção em “De Pietate”, um tratado sobre a compaixão e uma das defesas mais antigas da abstenção do consumo de animais, para a racionalidade animal e sua relação com o conceito de oikeiotes, que combina ideias de pertencimento, parentesco e relacionamento.
Será que ainda é justificável julgarmos seres sociais não humanos apenas como criaturas irracionais? E por que a diferença deve ser levada à inferiorização? O ser humano ao definir e classificar a racionalidade lançou outros animais a um extremo de subalternidade que permitiu torná-los seu maior alvo de exploração.
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