Opinião

Imagine passar sua vida confinado para ser consumido

Mais tarde, te embalam e te enviam para um açougue. Alguém há sempre de comer. Quanto vale sua morte? (Imagens: Tras Los Muros/iStock)

Imagine passar a sua vida toda confinado, chegando, quem sabe, a perder a noção do que existe fora das grades que afunilam seu mundo – sem poder sentir o aroma de nada que não seja sua ração e suas próprias fezes.

Aos poucos, você se torna incapaz de distinguir importantes elementos da realidade. Talvez, dependendo do nível de estresse e do tipo de ambiente, você comece a comer as suas próprias fezes confundidas com ração.

O som de seus companheiros que não voltam mais. Eles resistem quando são agarrados, mas logo são imobilizados – mesmo que isso custe penas voando e asas dilacerando.

Há um tipo de esperança que persiste, mas não em todos. Os mais sensíveis enlouquecem mais rápido em meio à agitação. Começam a se estranhar e tentam se bicar porque já não sabem quem são.

Aves que não se veem mais como semelhantes e pouco agem como aves, sintoma de uma degradação tradicional que usurpa do mais frágil o direito ao que seria uma vida normal. Dentro de um caminhão, o colocam dentro de uma caixa minúscula.

Sem espaço para movimentar naturalmente as asas, se encolhe num canto e assiste, entre grades de plástico, carros ultrapassando, caminhões encostando, pessoas falando.

Quantas vidas existem lá fora, mas nenhuma delas é como a sua. Te penduram, te atordoam e te sangram por três minutos.

Seu sangue, símbolo-mor da sua vitalidade sem unção, também é reduzido a produto, ou  removido como sujeira quando escorre pelo chão.

Não existe velório. Só escaldagem, depenagem e evisceração; e mutilação, gotejamento e resfriamento. Mais tarde, te embalam e te enviam para um açougue. Alguém há de comer. Quanto vale sua morte?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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