Matança de judeus imitou insensibilidade nos matadouros

O documentário “Homens comuns: Assassinos do Holocausto”, baseado no livro “Ordinary Men”, de Christopher Browning, apresenta fatores sobre a matança de judeus e minorias perseguidas pelos nazistas, com foco no Batalhão 101, de Hamburgo, que permite também pensar na matança de animais não humanos.

O batalhão era composto por homens que antes da guerra desempenhavam atividades civis, como, por exemplo, sapateiros, e que foram responsáveis por muitas mortes por execução por fuzilamento, incluindo de crianças e mulheres.

Se um deles passasse mal após o primeiro assassinato, a repetição levava à “naturalização”, o que era exercido como processo semelhante ao que ocorre nos matadouros, onde a cotidianidade afasta o estranhamento.

Ademais, quando o fuzilamento passou a ser visto como “desconfortável”, a empatia para com os fuziladores, não as vítimas, é citada como motivação para a criação dos campos de concentração.

Tais lugares foram inspirados nos matadouros e deixados longes da “vista dos civis”, conforme Charles Patterson em “Eternal Treblinka”, a quem já referenciamos no nosso artigo “Campos de concentração nazistas foram ‘inspirados’ em matadouros”. 

A morte foi “industrializada” pela facilitação, e para que números “fossem somente números”, como ocorre ainda hoje com tantos animais. Vagões antes usados no transporte de animais criados para consumo passaram a ser usados por humanos preteridos como humanos.

As execuções eram realizadas pelos que “aprenderam” a ver outros humanos como “animais inferiores”. Isso permitiu uma transição em que desenvolveram uma “consciência de minoração”, em que para matar humanos deve-se pensá-los como “seres matáveis”, no sentido do “dever ser morto”, que é o lugar imposto a tantos animais não humanos.

Assim a condição de seres matáveis foi estendida por imposição a outros indivíduos. Citável também é que a ideia da criação da diferença como fator de obliteração em relação ao outro foi o que permitiu vê-lo como alguém que prescindia de consideração em relação ao direito de não ser assassinado, fortalecido pela institucionalização da matança.

Logo características associadas aos que seriam mortos eram vinculadas a de animais, por precedência, “matáveis”.

O filme está disponível na Netflix.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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