Quem atropelaria um humano agonizando na estrada?

No filme australiano de terror “Fale Comigo”, dos irmãos Danny Philippou e Michael Philippou, há uma cena em que Mia (Sophie Wilde) e Riley (Joe Bird) voltam para casa de carro e encontram no meio da estrada um canguru filhote agonizando. É uma cena que faz refletir sobre a consideração à vida animal não humana e o especismo. Riley diz que devem ajudar a salvá-lo, mas Mia diz que não há nada a ser feito.

Ela dá ré e ameaça atropelar o canguru para “acabar com o seu sofrimento”. Então desiste. Nenhum deles é especialista, logo tudo baseia-se em ilações e na consideração com base em valores que situam o animal num lugar em que fazer algo por ele depende também da percepção sobre o valor de sua vida.

Afinal, quem cogitaria atropelar um humano agonizando na estrada? Como há muitos cangurus na Austrália, uma conclusão pode ser de que logo haverá outro canguru – algo que coincide com uma observação já feita antes por Peter Singer sobre a “crença na substituição”.

Contrariando Riley, Mia deixa o canguru filhote sofrendo. Ela justifica que “outro carro logo passará”. Ela transfere à outra pessoa a responsabilidade de fazer algo. A cena permite refletir, por associação, com outras situações de esquiva em fazer algo em relação a outros animais, e “porque são outros animais”.

Um exemplo é a crença de que se meus hábitos causam mal aos animais, e abster-se deles não é o suficiente para melhorar a vida dos animais, por que devo fazer algo? Há quem use esse tipo de argumento para não evitar o mal prescindível causado a outros animais. Ou seja, o fator dissimulativo.

Há budistas que dizem que se um animal que eles irão comer não foi criado nem morto especialmente para ser comido por eles, nenhuma responsabilidade eles têm sobre o animal. Outras pessoas dizem que se “elas não comerem tal carne, outras comerão”. A ideia de que minha “responsabilidade não é uma responsabilidade” tem sido uma das crenças mais usadas pelo ser humano para preterir outros animais.

A cena do canguru em “Fale Comigo” também permite refletir sobre pessoas que testemunham animais sendo mortos para consumo, ficam chocadas, mas continuam comendo animais. Mais tarde, o canguru já não é pensado por Riley nem Mia. Ele desaparece como se sequer tivesse sido encontrado.

O filme está disponível no Prime Video.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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