Categorias: Opinião

Peixe também é carne

Não faz sentido dizer durante a Semana Santa que comer peixe não é comer carne

Foto: Unparalleled Suffering

Não comer outros tipos de carne, mas comer peixe durante a chamada Semana Santa, sendo mais comum na sexta-feira e/ou no domingo de Páscoa, reflete o lugar de inconsideração do peixe, que é colocado abaixo de outros animais. Ou seja, comer peixe não é pensado como comer carne. Então do que é feito o peixe se comê-lo não é comer carne?

É como se o peixe sequer fosse pensado como animal, mesmo que ninguém negue que o peixe é um animal, havendo nisso uma contradição. Comê-lo é como não comer outros, sobre quem, diferentemente do peixe, chamam as partes de carne.

Há uma negação do peixe como ser carnoso, mesmo que seu corpo seja constituído de carne, assim como é também o nosso. Então como negar que o peixe é ainda mais inferiorizado do que outros animais com base nesse costume ou prática que surge com motivação religiosa?

Embora eu use como referência esta semana, essa realidade serve para uma reflexão sobre o lugar comum determinado ao peixe. Afinal, isso não seria possível se já não houvesse uma normalização dessa percepção sobre o peixe. Como comê-lo pode ser não comer carne, não comer sua carne?

Por outro lado, há uma afirmação no ato de dizer comer peixe que não ocorre em relação a alguns outros animais, já que a referência é sobre as partes e não o todo, o que é ainda mais intrigante se pensada a dissimulação em torno dos sentidos desse hábito.

Quero dizer, fala-se em “comer peixe”, e sem pensar no impacto disso para o peixe, mas somente na experiência de consumi-lo e em uma semana em que quem adota esse hábito o faz também como um ato de respeito, atenção, boa vontade e reflexão.

Se a Páscoa representa o renascimento, assim como o afastamento das “concupiscências da carne e dos prazeres sensíveis da mesa”, por que deve ser celebrada com morte?

Mesmo que haja uma associação do peixe com a consumação de milagres, e assim com a própria vida, isso não abstrai do animal a capacidade de sofrer diante da asfixia e da privação do viver. Não invalida o impacto da morte, porque isso seria impossível.

Ademais, abster-se de comer alguns animais somente em um dia ou em alguns dias também não é contraditório se considerado que há nisso, como a própria Igreja Católica apregoa, uma virtude moral? Havendo então, essa abstenção não deveria ser praticada todos os dias?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Uma coisa humanos e não humanos não suportam é a dor. Os peixes como os animais humanos sentem dor. Na captura fazem de tudo para escapar da tortura da morte.

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