Um fazendeiro no Reino Unido decidiu transformar em um negócio a caça de esquilos-cinzentos, chamados de “invasores”, para reduzi-los a hambúrgueres comercializados em Gales; e a ideia pode ir mais longe do que o previsto. A justificativa é que o animal é “uma ameaça e transmissor de doenças para outros animais”. Ou seja, o animal que dizem transmitir doenças para os outros deve ser comido.
Algo semelhante já foi defendido e continua sendo sobre os javalis e javaporcos no Brasil – sobre transformá-los em “bens de consumo”, “algo” que podemos encontrar em açougues e supermercados (vide Projeto de Lei 3384/2021, proposto pelo senador Wellington Fagundes (PL-MT), que em agosto participou de festas e cavalgadas durante sua licença médica remunerada).
Mas é mais difícil ainda ver lógica em um suposto “conservacionismo” que envolve reduzir um animal a um produto, a algo a ser consumido. Não é mais uma vez o econômico usando como engodo o interesse pela “conservação”?
E quando o econômico é imperativo, como o que deveria ser inegociável (o que é irreversível sobre a vida e tratado de forma tão convenientemente simplista) pode prevalecer diante do que é determinado pelo lucro? Isso também não é reduzir mais animais ao estado de propriedade? Ou seja, o caçar como o permitir matar para vender e comer.
É como dizer que podemos sempre comer outras espécies animais, que devemos ampliar nossa violência e produtificação de outros seres. E se a situação chegasse ao ponto em que o número de animais caçados não fosse suficiente à demanda?
Então começariam a criar esses animais em confinamento, promover a reprodução forçada ou artificial? Como tem ocorrido, por exemplo, com os jacarés em Corumbá (MS). Essa realidade também é análoga à história da domesticação do gado bovino no sudoeste da Ásia e imediações há cerca de cinco mil anos, mas com uma diferença bem clara em relação à realidade da época e à atual.
E também não que simplesmente caçar já não estivesse errado, mas não encontro sentido nessas justificativas que em diferentes partes do mundo, e em relação a diferentes animais, visa estimular uma demanda pelo consumo de mais animais. Como se animais demais já não estivessem sendo mortos para fins de consumo. Logo ultrapassaremos os cem bilhões por ano nos matadouros (“só” de terrestres).
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