Em “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, G.H. diz que “não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. […] E se a vaca não deixa, usamos de violência”.
A reflexão pode parecer condizente a um único momento, mas há dois momentos em que a narradora faz referência ao consumo de leite de vaca, e nos dois ela reconhece a arbitrariedade desse consumo – pela forma como surge e pelo controle que a vaca não pode ter em relação ao que é parte de sua existência.
Primeiro há um entendimento de que o leite de vaca não existe para o ser humano, pelo óbvio motivo de que não somos bezerros; e segundo porque a violência é a não aceitação da resistência da vaca em não querer cedê-lo, por qualquer motivo que seja.
Nisso, ela admite que a vaca não pode deliberar sobre o próprio corpo, porque à vaca não é permitido, o que faz com que sua recusa culmine no uso de violência, que surge como negação da vaca como propriedade de si.
Logo a vaca tem o corpo sem tê-lo. Ainda assim a conclusão de violência fica aberta para o leitor, com base no que ele crê como possível ou que sabe como possível em relação à violência humana contra a vaca. Mas ninguém pode negar que nada de positivo pode ser evocado na conclusão de que, no não querer da vaca, na sua resistência, o que surge em reação é a violência.
Para muitas pessoas, o ato de a vaca não deixar e que, portanto, culmina em violência, citado por G.H., pode parecer surpreendente, meramente fictício ou negável, mas não é, porque a determinação do interesse humano em relação a um animal criado a partir desse interesse é prevalecente e considerado inegociável pela sua arbitrária razão de instrumentalização da vida.
A violência nunca deixa de marcar a história da vaca, senão durante sua vida (pelas violações e limitações impostas a esse viver, em que gerar vida para lactar sequer é escolha), em seu fim que não deixa de ser no matadouro, para onde são encaminhados também seus filhos.
Mesmo na negação da violência, devemos nos perguntar, no não querer da vaca, quando o seu não querer é aceito? Não por acaso, vacas raramente envelhecem.
Leia também “Uma vaca explorada já não consegue se levantar“, “Quando a vaca não tinha mais leite a enviaram para o matadouro” e “Quando a vaca deixou de gerar leite decidiu matá-la“.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Visualizar comentários
Acho que valeria uma reflexão sobre a negação da realidade violenta que muitas pessoas preferem ter em relação aos corpos de outros animais a partir do conto "Perdoando Deus", também da Clarice.