Categorias: Opinião

Mais uma vida reduzida a pedaços de carne

Às vezes, o intervalo de um para outro é tão curto que vestígio de um combina de outro (Foto: Aitor Garmendia/Tras Los Muros)

Mais uma vida reduzida a pedaços de carne. À mesa dizem que porco não é inteligente. É mais fácil mentir para se omitir. Não importa a realidade, só a vontade. Se for para matar, e sempre é, melhor enganar – nós mesmos, os animais e tudo que vier. Diga o que não é e tudo resolvido.

Mas considerando como verdade sem ser, ser inteligente é o que justifica o viver? Quem não é inteligente deve morrer? Quem não manifesta emoções e sentimentos de maneira que consideramos digna de compaixão e empatia também? Isso vale para quem nas estranhezas das semelhanças?

A última passagem do porco é para um lugar com concreto e azulejo. “Dali não sai mais.” Sai sim, mas não como entrou. Tem uma faca descansando com sangue. Será que tocou e atravessou quantas peles? Quantos sangraram?

Às vezes, o intervalo de um para outro é tão curto que vestígio de um combina com o de outro. “Pode limpar, claro que pode, e deve.” A conta não para. Alegam que você não vê, que não sabe de nada, que não tem senso de percepção, de perigo, medo ou terror. Quem diz isso só quer comer, comer e continuar comendo até o dia de morrer. “Guincho e gemido é só barulho sem sentido.”

Se atribuem emoção ou sentimento falam que é ridículo, um “tosco antropomorfismo”. “Animal não é gente. E se sente, o que importa? Ainda não é gente.” O costume diz que a senciência só pode ser reconhecida até o ponto em que ninguém chegue a dizer que não é comida. “Sofre, mas não como nós. É bicho, e bicho nasce pra isso.”

O equivocado senso comum preenche a ausência de razão que a sociedade legitimou como razão. Esquisito, não? E os pés continuam apoiados no ponto em que o sangue escoa, mas nem tudo desce. Parte do chão continua vermelho, impregnado. Gruda sim e deixa marca que não se apaga.

Como é sentir o cheiro do sangue de quem já morreu antes de chegar sua vez? Parece que falo do destino de gente capturada em tempo de guerra, onde não há direitos humanos, assim como não há direitos animais para quem é criado para sangrar no matadouro.

Não importa como você olha para a lâmina ou se olha, porque a violência continua sendo perpetuada pela vontade que, como sempre, não é sua.

 

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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