Pequenas Narrativas

Matadouro desativado ainda tem cheiro de morte

Fotos: Aitor Garmendia

Há um matadouro desativado onde os ganchos continuam no mesmo lugar. Estão limpos, mas quando você pensa por que estão ali logo imagina que não. Há muito tempo não penduram carcaças, mas tem cheiro de matadouro.

“Um cheiro acre, acidulce, que incomoda, é o que pode-se sentir às vezes”, segundo cinco, seis moradores. Também notei algo estranho, pode ser consciência. Não é exclusividade, talvez seja agora pela ausência de abate.

Quando cheguei no local que pedem pra chamar de “lugar nenhum”, logo entendi. Claro, não há corpos ali, mas quem vive na região e entrou várias vezes no matadouro desativado diz que já viu sombras de animais nos ganchos. Há imaginação, poder de associação e preocupação – confusão de percepções e sentimentos – é o que parece.

Uma senhora diz que quem passa perto do “matadouro morto” depois que anoitece tem a impressão que ainda ouve “berros dos animais”. Nem todo mundo concorda. Mas é outra associação que marcou e ficou, e quem afirma que não ouviu nada não hesita. “Prefiro não ouvir.”

Quem mora por ali lembra da dor dos animais. Era tempo de marretada antes da degola. “Um sofrimento marcante, porque você via os bichos descendo manso e saindo sem vida, já esfolado, sem cabeça e embalado em plástico. Parece que ainda escuto tudo”, comenta a mesma senhora que pede para ser identificada pelo fictício “Dona Zinha”.

“Deve ser o som daquele tempo que às vezes volta pra gente”, acrescenta. Ela conta que seu falecido marido percebeu que não nascia nada em volta do matadouro e se estendia por mais de cem metros. “Talvez por causa de poluição ou coisa que a gente desconhecia” – conclui.

É área particular, contaminação foi controlada, mas os proprietários vivem longe e preferem não dar explicações sobre o matadouro não ter sido demolido. Os ganchos continuam lá, uma cortina grossa de PVC e uma plataforma não removível.

“Muita morte passou por aqui. Lembro de um porco que escapou uma vez depois de receber marretada e caiu aqui na frente, se debatendo, agonizando. Deu dó, de verdade, deu dó, e muita gente só queria comer.”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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