Opinião

Matamos até quando homenageamos os nossos mortos

Entre mastigadas e mordidas na carne que pertenceu a um ser senciente e consciente, falaremos sobre os bons e maus momentos vividos juntos daqueles que se foram (Fotos: iStock/Aitor Garmendia/Tras Los Muros)

Ontem, passei no mercado e observei a fila do açougue. Hoje, muitas daquelas pessoas que estavam na fila provavelmente foram ou irão ao cemitério para relembrar ou homenagear seus entes queridos. Mesmo para quem não é religioso, a data acaba por trazer alguma lembrança daqueles que partiram. Afinal, é natural lembrarmos dos nossos.

Por outro lado, no almoço e no jantar deste Dia de Finados, muitas dessas pessoas se alimentarão de morte. Sim, nos recordaremos dos nossos falecidos enquanto comemos a carne daqueles que jamais receberam ou receberão qualquer homenagem. Tiveram uma breve vida, morreram como se jamais tivessem existido.

Entre mastigadas e mordidas na carne que pertenceu a um ser senciente e consciente, falaremos sobre os bons e maus momentos vividos juntos daqueles que se foram. Os outros não nos interessam, porque não são como nós. Ao nosso redor, os mais diferentes tipos de carne. Quantas espécies, quantos animais mortos? Difícil dizer. Podem ser partes de diferentes animais, que tinham distintas personalidades.

Ou seja, matamos até quando homenageamos os nossos mortos. Destruímos vidas sem qualquer consideração, e essas vítimas não são enterradas. O seu funeral é a fumaça da churrasqueira que queima suas partes fracionadas, irreconhecíveis. Se passam do ponto, são lançadas no lixo como qualquer coisa insignificante, mais do que nunca destituídas de valor.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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