Quando 250 mil aves estão espremidas num aviário e incapazes até de esticar suas asas; quando mais de um milhão de porcos sobrevive em apenas uma área de chiqueiros, sem jamais pisar em algum lugar a céu aberto; quando a cada ano dez milhões de criaturas seguem para o abate sem ter contato com a menor demonstração de bondade humana – é tempo de repensar preceitos antigos e perguntar o que estamos fazendo e o que nos move.
Cada vez mais, animais são um teste de caráter, empatia, decência, conduta digna ou cuidado confiável da humanidade. Devemos tratá-los com bondade, não porque eles têm direitos ou poder ou por conta de alguma argumentação sobre igualdade, mas, pelo contrário, pelo que eles não têm, porque estão em um lugar assimétrico e de impotência diante de nós.
É tão fácil negligenciá-los ou jogá-los para baixo do tapete! Onde quer que nós, humanos, entremos em seu mundo, seja em fazendas ou em abrigos da savana africana, chegamos como senhores, donos de poderes extraordinários de terror e compaixão.
É verdade, como constantemente somos lembrados, que tratar bem os animais está entre as obrigações mais simples da caridade humana – e por isso mesmo é negligenciada com facilidade. Ao mesmo tempo, como sempre haverá injustiça e sofrimento humano no mundo, pode parecer que os erros cometidos com animais sejam menores e secundários.
A resposta para as duas questões é que a justiça não é uma mercadoria limitada, tampouco a bondade ou o amor. Injustiça e sofrimento não são desculpas para acreditar que fazer mal aos animais é menos importante do que aos humanos e que, por isso, devemos nos concentrar nesses últimos. Um erro é um erro, e em geral os pequenos, quando fingimos não vê-los, proliferam-se e fazem os maiores males a nós mesmos e a outros.
Matthew Scully em “Domínio: O poder do ser humano, o sofrimento dos animais e um pedido de misericórdia”, publicado originalmente em 2002 e lançado no Brasil em 2018 pela Editora Civilização Brasileira (Grupo Record). Scully é jornalista e foi editor literário da National Review e colaborador dos jornais New York Times, Washington Post, Wall Street Journal e Los Angeles Times.
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É um ótimo livro. Estou a lê-lo; porém, é meio cansativa a leitura. É uma obra densa, um pouco parada, não é dinâmica como o "Libertação Animal", mas é bem profunda.