Categorias: Opinião

Movimento vegano tem alta desistência de ativistas

Estima-se que cerca de 3% da população global seja vegana. Esse percentual também é reflexo de uma realidade ainda problemática no veganismo – o baixo percentual de veganos que se tornam ativistas (estima-se que 70% dos veganos não fazem nenhum tipo de ativismo) – e a baixa retenção no ativismo.

A crença de que apenas ser vegano é o suficiente para aproximar outras pessoas do veganismo parece fazer sentido, mas na prática a realidade é diferente e ajuda a entender por que o veganismo não está crescendo de forma realmente satisfatória, assim como também não está impactando como poderia na redução da exploração e consumo de animais envolvendo também não veganos.

Com base em uma análise em que utilizamos dois estudos sobre movimentos sociais – do pesquisador Mario Diani e das pesquisadoras Erica Chenoweth e Maria J. Stephan – e que podem ser usados também para refletir sobre o movimento vegano, pode-se estimar que apenas cerca de 5-15% dos que se engajam em ativismo continuam ativos após cinco anos. Como o crescimento do movimento vegano e o que é relevante ao veganismo depende de ativismo e de uma pluralidade de abordagens, um baixo percentual de veganos que se tornam ativistas e uma grande queda no número daqueles que são ativistas impacta no alcance da causa para uma transformação.

Mesmo que haja uma renovação no ativismo, isso reflete uma estagnação, se os sujeitos mudam, mas os números não se elevam – porque externa uma rotatividade em que “velhos ativistas” saem de cena e surgem “novos ativistas” – portanto não há exatamente uma soma, mas somente uma substituição que mantém o impacto no mesmo nível.

Quem é vegano há pelo menos alguns anos, e se ainda faz algum tipo de ativismo, já pode ter notado como pessoas que víamos também fazendo ativismo vegano, hoje já não são ativas. Isso não é sobre culpá-las, até porque as pessoas passam por transformações em suas vidas, podem desanimar, sofrer grandes desgastes emocionais, assim como podem desempenhar atividades profissionais que as sobrecarreguem. E, claro, também podem ter outras obrigações.

Pesquisadores que analisaram o burnout em ativistas de movimentos sociais concluíram que muitos ativistas que atuam com direitos animais e justiça climática tendem a abandonar a militância após alguns anos devido ao estresse, frustração e falta de apoio.

Embora faltem dados mais específicos, a combinação de pesquisas sobre burnout ativista e a psicologia dos movimentos sociais sugere que a desistência no ativismo vegano segue padrões similares a outras causas. O desafio é tornar o ativismo sustentável – tanto emocionalmente quanto pragmaticamente, além de encontrar meios de aumentar a retenção e minimizar a desistência. Um movimento vegano que a cada ano ganha novos ativistas, mas perde velhos ativistas, pode ficar preso a um processo de substituição insatisfatório – se isso não se reflete em aumento, em mais mudanças.

É muito comum um percentual de “novos veganos” ter um sentimento imediato de querer transformar o mundo. Isso explica também por que há sempre mais “novos veganos” empolgados em aproximar as pessoas do veganismo ou do que é relevante ao veganismo.

Isso ocorre porque tudo ainda é novo, sem os “calos” de anos de ativismo que muitos sequer chegam a atingir porque desistem antes ou porque nem começaram. Muitos começam com “energia revolucionária”, mas a frustração com a lentidão das mudanças os leva a recuar. Brigas entre correntes veganas ou críticas excessivas dentro do movimento também podem levar pessoas a se afastarem do ativismo.

O pesquisador Mario Diani já havia observado em seu estudo que divisões internas em movimentos sociais reduzem a retenção de ativistas. Outro problema é que, pensando isso em relação com o movimento vegano, há veganos que deixam de ver o veganismo como luta coletiva e passam a vivê-lo somente como escolha pessoal.

Embora seja benéfico que uma pessoa faça escolhas contrárias à exploração animal, não ajudamos o veganismo a crescer ao não vivê-lo como luta coletiva – porque nos abstemos da necessidade de motivar outras. Outro ponto que merece atenção é que o engajamento como voluntário em causas tende a cair após os 30-40 anos, segundo um levantamento do laboratório de ideias Pew Research Center.

Já defendi que se cada vegano motivasse pelo menos uma pessoa a ser vegana, isso já teria um efeito multiplicador, principalmente se as que se tornassem também se motivassem a fazer o mesmo. Se um vegano converte uma pessoa no primeiro ano e cada um converte uma no segundo, em dez anos ele terá iniciado uma corrente que levou pelo menos 1024 pessoas para o veganismo.

Além disso, sempre é possível motivar mesmo pessoas que não têm interesse no veganismo a fazer algumas mudanças que, se adotadas por um grande número de pessoas, terão um impacto que pode ser transformador. Portanto é possível aproximar do veganismo quando o veganismo é possível, mas também é possível pensar em alternativas de mudança para envolver alguém desinteressado em uma transição para o veganismo.

Devemos considerar que se a cada dez veganos apenas um faz ativismo, o alcance do movimento já fica bem limitado, já que o movimento ainda é pequeno. E embora existam ONGs promovendo também o veganismo no Brasil nesta era digital, não é novidade que a maioria tem uma atuação que dificilmente vai além dos grandes centros urbanos – atingindo, de alguma forma, somente 14% dos municípios brasileiros, com base em um mapeamento informal. Portanto a expansão do ativismo para o crescimento do veganismo é mais do que necessária se não quisermos também nos pautar em mudanças que, mesmo positivas, possam ser geograficamente bastante dispersas e extremamente assimétricas.

E mesmo a atuação de ONGs bem-intencionadas têm limitações. Há estimativas, como a da Corporation for National and Community Service (CNCS), dos EUA, que avaliam que mesmo em países onde o trabalho voluntário gera grande engajamento a desistência anual é de 30 a 40%.

Devemos lembrar que movimentos pelo abolicionismo ou por qualquer grande luta por direitos não cresceram só com adeptos “passivos”, mas com ativismo e ação organizada – incluindo boicotes, protestos e lobby político. Acreditar que uma importante mudança ocorrerá também de forma espontânea e sem nenhum tipo de interação pode ser ingenuidade. Segundo um levantamento da Faunalytics, a maioria das pessoas que reduz o consumo de carne, por exemplo, só o faz por influência direta – conversas e interações que os levaram a questionar esse consumo.

O que não pode ser ignorado também é que o movimento vegano não pode ser homogêneo, portanto isso deve também se refletir no ativismo se o objetivo é chegar até o maior número possível de pessoas. Logo, abordagens diversificadas, diferentes correntes, não são um problema, o problema é não haver diálogo – já que um movimento homogêneo nunca seria capaz de corresponder à diversidade que existe fora do veganismo e com a qual é necessário estabelecer contato e interação para gerar grandes transformações relevantes ao veganismo.

Para estimular e reter ativistas no veganismo é viável também a criação de estruturas de apoio emocional, como tem ocorrido em outros movimentos sociais – redes de apoio, grupos de terapia, rodas de conversa. Pensar o veganismo sob uma perspectiva não vegana também é importante para favorecer a consideração de mais pessoas – o que envolve evitar atitudes que podem afastar em vez de aproximar.

Quando somos veganos podemos ignorar que estamos tentando atrair quem ainda não tem a mesma percepção que nós sobre o que é relevante ao veganismo. Então devemos pensar em como reagiríamos se não fôssemos veganos, não tivéssemos tido contato com o veganismo ou ainda não nos importássemos com o veganismo.

Uso também como referência o estudo de Erica Chenoweh e Maria J. Stephan para lembrar a necessidade do crescimento do veganismo ou do envolvimento de pessoas não veganas em pautas relevantes ao veganismo. Elas apontam que campanhas bem-sucedidas de movimentos sociais exigem pelo menos 3,5% da população ativamente engajada – e o veganismo ainda não chegou lá, portanto depende de envolver também pessoas não veganas. Afinal, como observado antes, o movimento vegano é pequeno e a maior parte dos veganos não é ativamente engajada.

A Faunalytics estima que o veganismo chegue a perder até 90% de ativistas em um período de dois anos. Como apontei antes, não se pode ignorar a renovação, mas uma renovação que substitui, mas não soma (porque há grandes perdas) cria um ciclo interminável de não crescimento.

Vale lembrar também que muitos veganos sequer repercutem conteúdo de ativistas, o que poderia compensar a ausência de uma ação ativista própria por meio do que podemos chamar de “ativismo de um clique” – que pode ser praticado por qualquer pessoa que use as redes sociais. Por exemplo, se globalmente 10 milhões de veganos compartilhassem uma postagem por mês, seriam pelo menos 120 milhões de “impactos”/ano – sem grande esforço individual.

Um único compartilhamento pode ser o primeiro contato de alguém com o veganismo. Se mais veganos entendessem isso, o movimento poderia ganhar força viral – algo que hoje depende quase exclusivamente de uma minoria.

Observações

Crença comumSe eu apenas for vegano, outros vão se inspirar e seguir meu exemplo”.

Realidade: Pesquisas mostram que mudança social exige difusão ativa.

Medo de autocrítica: Muitos temem que falar sobre desistência pareça “derrotismo”, mas ignorar o problema é pior.

Ciclo de ativismo “explosivo-declinante”

  • Fase 1 (Entusiasmo inicial): A pessoa se torna vegana, consome conteúdo impactante e quer “mudar o mundo”.
  • Fase 2 (Frustração): Percebe que a mudança é lenta, enfrenta resistência social ou se cansa da pressão emocional.
  • Fase 3 (Desistência ou passividade): Abandona o ativismo e se torna um vegano “silencioso”.

 

Saiba Mais

Segundo levantamento da Faunalytics, 84% dos ativistas relataram exaustão emocional após 2-3 anos de ativismo intenso e 62% abandonaram a militância ativa (ou reduziram drasticamente) devido à frustração com a lentidão das mudanças, sobrecarga de exposição a sofrimento e falta de reconhecimento (sentir que seu trabalho é invisível).

O levantamento que estima que 3% da população é vegana é do Instituto Ipsos. Já o percentual de 70% é baseado em uma estimativa do Vegetarian Resource Group.

Se os veganos somam 3% da população global, mas só 10% deles são ativistas, então apenas 0,3% da população está realmente pressionando por mudanças – ou seja, insuficiente.

Referências

Chenoweth, E; Stephan, M. J. Why Civil Resistance Works: The Strategic Logic of Nonviolent Conflict. Columbia University Press (2011).

Diani, M. The Oxford Handbook of Social Movements. Oxford Academic (2015).

Faunalytics. Study of Current and Former Vegetarians/Vegans (2014). 

Faunalytics. Emotional Labor, Burnout, And Animal Advocacy (2019).

Leia também:

Como o marketing prejudica o veganismo

Foco em produtos é “um tiro no pé” do movimento vegano

Conflitos sobre consumo e política no movimento vegano são tema de pesquisa

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Texto altamente pertinente.

    Destacaria ainda mais os seguites pontos:

    1. "Quem é vegano há pelo menos alguns anos, e se ainda faz algum tipo de ativismo, já pode ter notado como pessoas que víamos também fazendo ativismo vegano, hoje já não são ativas. Isso não é sobre culpá-las, até porque as pessoas passam por transformações em suas vidas, podem desanimar, sofrer grandes desgastes emocionais, assim como podem desempenhar atividades profissionais que as sobrecarreguem. E, claro, também podem ter outras obrigações."

    Imagine a pessoa que trabalha numa escala 6x1 e tem filho(s) menores de idade.

    2. "Pesquisadores que analisaram o burnout em ativistas de movimentos sociais concluíram que muitos ativistas que atuam com direitos animais e justiça climática tendem a abandonar a militância após alguns anos devido ao estresse, frustração e falta de apoio."

    A falta de uma rede apoio é o que mais pesa ( e isso também reflete no terceiro ponto, abaixo). Estresse e frustração fazem parte de qualquer movimento social de luta por justiça e direitos básicos: o que diferencia o movimento vegano é que a gente vai apanhar da esquerda e da direita, quando for conveniente.

    3. "Brigas entre correntes veganas ou críticas excessivas dentro do movimento também podem levar pessoas a se afastarem do ativismo."

    No Instagram, então... Um restaurante vegano postou a seguinte provocação: "O veganismo é político! Ou é jardinagem!" Será que o veganismo, enquanto premissa ética, não se sustenta e se justifica por si mesmo? Foi uma frase polêmica, mas como você disse acima: o problema não é divergência, e sim quando há diálogo. E, de fato, não houve mais diálogo porque a página do restaurante bloqueou uma das pessoas que discordaram, e discordaram com argumentos e baseadas em Leslie Cross e outros fundadores. Ou seja: não concorda comigo? Block. Concorda? Coraçãozinho. E aí se fala de tudo no movimento: na questão racial, sexual, de raça, de gênero, de acesso, de consumo, de educação e tudo que outras questões, mas os animais mesmo... Sempre em segundo, em terceiro, em quarto plano... então, pra algumas pessoas, é isso: se o veganismo conflitar e não estiver de acordo em alguns pontos com a agenda cultural, racial, sexual e/ou ou política ou religiosa de algum grupo, pra eles a luta perde sua sustentação prática e ética, e se torna isso, segundo eles: jardinagem. Olha o nível do debate que algumas pessoas querem trazer pra dentro da causa...

  • O veganismo pragmático, de mercado, da libertação das gaiolas e não das galinhas infestaram o movimento, aí deu uma caída e desanimada. Parece que estamos fazendo ativismo para empresas, matadouros vender produtos vegetais, como se fosse apenas um sabor a escolher e não por ética, para libertar os animais. Por isso hoje faço solitário pela Internet, infelizmente em grupo fisico não dá, cheio de vegano namaste, antivacina, fascista, contra direitos humanos .... que come ovo feliz ou carne "de vez em quando" pra não desapontar o coleguinha ou parente.

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