Categorias: Opinião

Não posso chamar de sobrevivente um animal que será morto para consumo

Foto: NSPCA

Quando um animal criado para consumo não morre em uma situação que classificam como trágica ou eventual, o chamam de sobrevivente – seja pela intervenção de alguém, porque algum “imprevisto” permitiu ou por algo associado a uma particularidade de sua condição.

Há nisso o “sofisma da sobrevivência”, porque nenhum animal criado para consumo, que não pode livrar-se da dominação que resulta em sua morte, é um sobrevivente, a não ser que seja removido definitivamente desse contexto.

Sem isso, é ilógica a afirmação de que um animal dominado é um sobrevivente. Não posso chamar de sobrevivente alguém submetido a uma realidade sem chance de libertação, que tem seu fim almejado pela primariedade e/ou consequencialidade; se sua morte é objetivo principal, meio de reduzir despesas ou compensação final, o que significa que ele não existe para viver.

Se endosso a crença do sobrevivente tratado como “sujeito de não vida”, romantizo as violências estruturais que são prova de que essa crença na ideia do sobrevivente é artificialização momentânea, sobre uma situação passageira em que um animal apenas teve sua morte adiada.

E se seu fim é premeditado, como posso chamá-lo de “sobrevivente”? Ainda mais se, como consumidor, sou um dos fatores de sua não sobrevivência predeterminada? É uma antinomia, uma contradição, chamar de sobrevivente o animal que não deixa de ser explorado e é enviado para a morte.

Afinal, não será permitido que ele viva. Logo o animal apenas escapa temporariamente de um fim que surgiu como consequência do que é imposto por nossos interesses de consumo. E também por isso ele será morto em caso de “sobrevivência”. Não é novidade que a mídia endossa os discursos oficiais de perpetuação da exploração animal, e em relação à ideia da “sobrevivência”, isso não muda.

O problema da “crença do sobrevivente” é que cria uma artificiosa ideia de que um animal está salvo, embora seja impossibilitado de desvencilhar-se de sua finalidade dominativa. Mas que animal está salvo se é trazido ao mundo para não ser salvo? Se a concepção de sua vida continua sendo a não vida?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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