Categorias: Opinião

Ninguém precisa de travesseiro com penas de ganso

Por que usar algo arrancado de um animal?

Com diversas opções sem uso de animais, ainda há quem prefira usar travesseiro com penas de ganso. Por que usar para descanso algo arrancado de um animal?

No Brasil, algumas marcas orgulham-se em trazer destaques como “nossas penas”, mas as penas não são dessas marcas, mas dos animais que foram privados delas. Mesmo quando as penas são citadas ou tratadas como um subproduto de outra indústria, isso não anula que a pena é parte do animal.

Produtos baseados no uso de animais envolvem um processo de apropriação em que o que era de um animal não deve ser pensado como sendo desse animal e sim de quem oferece o produto. Há uma contradição em que o animal é referenciado, mas não deve ser pensado como dono do que é inerente ao seu próprio corpo.

Chama atenção também quando a embalagem apresenta imagens pacíficas de vários gansos com suas penas. Mas se as penas estão no travesseiro e não no animal, por que exibir um animal a quem parece não faltar nenhuma pena? Sem dúvida, por paradoxo, porque não teria um apelo estético atrativo, e seria menos estimulante a imagem de um animal depenado.

Um travesseiro de penas de ganso traz a seguinte informação: “As penas funcionam como molas propulsoras, proporcionando excelente sustentação à sua cabeça.” Pena de nenhum animal tem por inerência essa finalidade, mas a forma como isso é colocado visa fazer acreditar que sim, que penas também existem para servir a tal fim.

O que importa então não é o sentido natural da pena, mas o sentido de ressignificação da pena – o que explica também por que as pessoas têm diferentes percepções quando se fala em “ganso” e em “pena de ganso”. No primeiro exemplo o animal é inequívoco, mas no segundo o foco está na pena e pensada de forma desconectada do animal.

Exemplo disso é que, se observo pessoas avaliando travesseiros de penas de ganso, dificilmente estarei diante de alguém que dirá: “Não, isso é do ganso! Não faz sentido usar o que é arrancado de um animal!”

Normalmente as pessoas apenas considerarão se vale a pena ou não adquirir o produto, mantendo a exclusão do ganso do que não estaria disponível sem uma apropriação em relação ao ganso.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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