Caminhante era apelido de um homem que trabalhou por muitos anos conduzindo porcos para o abate no Paraná.
Dizem que, por algum motivo desconhecido, os suínos não hesitavam em acompanhá-lo matadouro adentro, e não era necessário usar nenhum tipo de violência para guiá-los até onde suas vidas chegariam ao fim.
O trabalho do Caminhante terminava assim que os animais chegavam à zona de atordoamento, precedente a degola. Os porcos não resistiam, o que não significava que seus sofrimentos inexistiam.
Um dia, depois de muitos anos, pela primeira vez um suíno não quis acompanhar o Caminhante. Ele ficou surpreso e outros funcionários do matadouro também.
Então arrastaram o animal, que começou a guinchar bem alto, e o Caminhante o soltou. Mas o porco não parou e tentou recuar. Sua expressão de medo deixou o homem sem reação enquanto dois funcionários voltaram a arrastá-lo.
O suíno ainda virava a cabeça e o Caminhante entendeu como um sinal de que o animal sabia de sua culpa e queria que ele também soubesse e não tivesse dúvidas.
Naquele dia, o homem não deixou a zona de abate, como sempre fazia no mesmo horário. Ouviu tudo que poderia ouvir sobre a morte do porco que desconfiou de sua intenção.
Ele não o olhou, não viu a violência do atordoamento e da sangria, com aquele corpo não humano de ponta-cabeça pendurado pelos pés como prisioneiro da vontade humana.
Escutar, só escutar, era sua intenção, e escutou até o momento em que um corpo sem vida trouxe silêncio que o incomodou mais do que qualquer barulho.
Instrumentos, correntes, passos ou qualquer movimento, nada chegava aos seus ouvidos. Era como se estivesse num pedaço de mundo sem som, que transformou-se num vazio.
O caminhante berrou, mas não conseguiu ouvir a própria voz. Foi a última vez que o viram ali.
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