Perto do açougue do supermercado, ouvi alguém dizer: “Que belo pedaço!” Era sobre um pernil de porco. O pedaço estava “limpo”, sem sangue residual, sem ideia de conjunção – apenas a carne como se tivesse chegado ali por ser dali, como se fosse daquele jeito.
O sorriso de alguém diante do balcão, do lado de cá, não tão cá, me fez pensar sobre a ideia da carne que, naquele volume e proporção, é parte de um corpo inatural condicionado a um rápido desenvolvimento. E a pluralidade contextual do que posso chamar de “desenvolvimento”?
Porque o desenvolvimento animal para consumo também é o seu oposto, porque é também o forjar para o aniquilamento, o pré-aniquilamento, logo o desenvolvimento é também antítese. Afinal, é o desenvolver para não ser, para reafirmação da não existência, do não reconhecimento.
A maneira como a carne foi recebida no açougue me deu impressão de alguém tocando um presente – e associei ao ausente, ao que foi uma perna, que chamam de pernil em referência ao “comestível”, como se surgisse comestível e nada além de comestível. E por que “pernil de porco” e não “pernil de um porco”? Há nisso também apagamento.
O pernil então teria vindo do pernil, surgindo como pernil e não sendo nada além de pernil – foi o que concluí observando expressões, que poderiam não ser apenas sobre o pernil à medida em que poderiam, porque partes são vistas como partes, e como se não fossem nada além de partes. Como surgem as partes? Das partes que eram partes?
O contexto pode ser poderosa convergência à consciência. E o que transmite a brancura do açougue, dos aventais, dos bonés, das bandejas, dos cabos das lâminas que reduzem partes em mais partes? O processo de descaracterização e minoração intensifica-se, e no açougue a faca é também representação de distanciamentos, afastamentos. Corpos vão decrescendo, prolificando dissociações.
Não é sobre não saber, mas sobre as construções do consumo confortável. Mais tarde, vi a cabeça de um porco de cinco ou seis meses, recém-abatido, e imaginei-a sobre o balcão, com pelos e escorrendo sangue pela vitrine, de onde foi tirado antes o pernil “limpo”, sem sangue residual – o “pernil” que era “pernil”.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…