Imagine se acordássemos um dia e descobríssemos que a nossa carne literalmente tem um preço. As partes com menos teor de gordura sendo as mais valorizadas, ou não. Na rua, anúncios trazendo seres como nós, fragmentados em painéis publicitários, anúncios na TV e folhetos de supermercado. Olho um encarte com atenção. Ao lado de frutas em promoção, vejo partes de um corpo como o meu à venda. Me falta uma perna. Está lá: Pernil, ornamentado com belas ervas.

Na rua, eu e outro sujeito nos entreolhamos estranhamente. Ele não tem braços. “Fui pego de surpresa. Espetinho”, lamenta. Somos bens de consumo, com um preço modesto, baixo, torpe, pode variar. É a crise. Sinto cheiro rançoso. Reconheço. É bacon na chapa. “É de quando, meu amigo?”, pergunta o freguês. “É fresquinho. De um rapaz que abateram ontem, tinha 18 anos”, responde o dono do carrinho de cachorro-quente. “Tá certo. Manda ver!”

Sequestro de pessoas? Não. Comércio legal de carne humana. O mundo mudou. Hoje você come, amanhã você pode ser comido, dizem. Sabor? Carne de porco, com algumas variações. O direito à vida desapareceu, para não humanos e humanos. Atropelamentos, assassinatos. Cadáveres largados nas esquinas deixados para apodrecer. Ninguém se importa. Não há mais velórios. Os cemitérios desapareceram.

“Morreu? Quantos minutos? Se a carne estiver em bom estado, mande um caminhão para aproveitar o que sobrou.” Carne moída de primeira, segunda, terceira e quarta. Comida. A sua liberdade termina onde a fome do outro começa. “Tem dinheiro?” “Sim!”, “É só apontar o dedo que a gente recolhe”. Um arrastão leva 40 de uma vez. No matadouro, todo mundo tenta fugir. Impossível. Laço de bezerro. Espasmos, olhos vacilantes, pistola pneumática. Abate humanitário.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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