Categorias: Opinião

O primeiro homem que matou um boi foi considerado um assassino

Há referências precedentes à Era Comum e contemporâneas que, autoralidade à parte, dizem que provavelmente “o primeiro homem que matou um boi foi considerado um assassino”.

Talvez “Moby-Dick”, de Herman Melville, seja uma das obras mais populares a trazer tal consideração que remete ao hábito de explorar, matar e consumir animais, embora o contexto seja de exploração de vidas aquáticas. Também não é novidade que muitos leitores não deram atenção a essa crítica ou recordem-se dela.

O mesmo pode ser dito de “A Selva”, de Upton Sinclair, lançado em 1906, relegado a uma compreensão de que trata-se apenas de uma obra sobre a exploração do trabalho humano, quando vai além.

Afinal, questiona a legitimidade da industrialização da destruição de vidas não humanas a partir da produção de carne, que já relegava tanto animais humanos quanto não humanos a uma condição serializada, de desanimalização, em plataformas de produção (destruição).

Assim, de um lado, há a miséria não humana, do animal a quem é imposta a morte; do outro, há a miséria imperativa de quem submete-se a esse sistema como mão de obra barata, por reconhecê-lo como uma viabilidade de sobrevivência e diante do qual vê-se em condições de adaptação.

Quem está no topo, e controla esse sistema de produção, tem o direito institucionalizado de exercer autoridade tanto sobre não humanos quanto humanos – e assim posiciona-se como o condão entre duas misérias – uma que persiste pela continuidade do mesmo sujeito (humano) e outra que persiste pela descontinuidade de outro sujeito (não humano).

Porém, como negar que quem favorece esse controle é quem financia esse sistema por meio do consumo? Nenhuma empresa que tem o grosso de sua produção centrada na exploração animal persevera sem que um grande número de consumidores compre seus produtos resultantes dessa “desanimalização” de múltiplas facetas.

Voltei a refletir a respeito lendo sobre os romenos que migram todos os anos para a Alemanha para trabalharem como mão de obra barata em matadouros. Em algumas partes do mundo tem crescido o número de “nacionais” recusando-se a atuarem em matadouros. Isso já é visto como “um problema” em partes do Reino Unido há algum tempo.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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