Categorias: Pequenas Narrativas

Observando animais antes do abate

Foto: Anita Krajnc

Fica parado por horas em frente ao matadouro vendo os animais chegarem. Pensa na estranheza de que logo tantos pares de olhos não verão mais nada. Não funcionarão. Estarão desconectados da cabeça, de um corpo.

“Quem pensará nos olhos já tão distantes? Como se nunca tivessem sido parte do mesmo corpo, da mesma carne. Quem lembrará como eram, o que traziam ou transmitiam? Para muitos, estar diante de vocês é como estar diante de ninguém.”

Leu em algum lugar que são animais com uma visão incrível, e o tempo todo o matadouro está cheio deles – nunca cessa. “Que vida estranha, não?” Um último olhar de temor, terror, e com o escorrer do sangue que enche baldes perdem a função – são empurrados para a escuridão – material, imaterial – o todo que se pode consentir ou omitir.

Sem vida, seu olho desperta nojo, enquanto com vida, quem liga? É como se nem estivesse ali. Se fosse de mentira, quantos perceberiam? Na morte, olhos também são ignorados, rejeitados. E isso é estranho, é fácil, e porque é perpetuado, pelo engano, pela vontade, pela irrealidade que ampara a realidade.

“Um olho é algo tão perfeito, em forma, tracejado, cor e tom – em coisas que o exercício cotidiano da impercepção faz parecer irrelevante. Se olhar bem nos olhos, não verá apenas reflexo, mas um encontro de mundos. Há vontade, súplica ou surpresa, porque a morte também surpreende aquele que confia.”

Alguns pares miram os seus. Vêm da carroceria do caminhão. São lanternas que ninguém deseja que ilumine nada, que apenas se apaguem, e se apagarão, pela violência que enche pratos de prazer. E por que esse poder destrutor sobre os outros? “Porque o aceitamos, não o rejeitamos, não o confrontamos, não mudamos. Cada morte é um par de olhos que mira o meu e de tantos outros de lá pra cá.”

Carne representa olhos fechados de um corpo subjugado. Não consegue ver um pedaço sem pensar que fizeram parte da mesma unidade de vida. “Onde há carne, há uma ausência de olhos, dos animais, e uma de olhar – que é a nossa própria.”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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