Será que OGMs (incluindo transgênicos) vão acabar com a fome no mundo? Peguemos como exemplo neste momento apenas o arroz. A diminuição dos níveis de glutelina no arroz já foi associada a um aumento não intencional nos níveis de compostos chamados prolaminas, que podem afetar a qualidade nutricional do arroz e aumentar seu potencial para induzir a uma resposta alérgica – como já destacado pelo projeto Genetically Modified Food, do Center for Health and the Global Environment, da Universidade Harvard.
Organismos modificados podem, além disso, escapar de estufas, campos e gaiolas de aquicultura e invadir ecossistemas naturais ou quase naturais, e perturbar sua biodiversidade. Alimentos transgênicos podem danificar a biodiversidade promovendo maior utilização de pesticidas associados com culturas geneticamente modificadas que são particularmente tóxicas para muitas espécies, e, por introduzir genes e organismos exóticos no meio ambiente, podem perturbar comunidades vegetais naturais e outros ecossistemas.
Desde o início dos anos 2000, pesquisadores brasileiros têm publicado artigos levantando questionamentos sobre a viabilidade e a obscuridade dos transgênicos. Um exemplo é o artigo “Transgênicos: avaliação da possível (in)segurança alimentar através da produção científica“, publicado na revista “História, Ciências, Saúde – Manguinhos”, da Fundação Oswaldo Cruz, em que os pesquisadores Maria Clara Coelho Camara, Carmem L.C. Marinho, Maria Cristina Rodrigues Guilam e Rubens Onofre Nodari revelaram que no Brasil os transgênicos começaram a ser aprovados e introduzidos não respeitando normas de biossegurança.
“Contudo, o mais intrigante é a aprovação de três tipos de milho transgênico, o milho Liberty Link (evento LL25), o milho Guardian (evento MON810) e o milho Bt11 (evento Bt11), sem estudos sobre segurança alimentar e riscos ao meio ambiente nos ecossistemas brasileiros, contrariando as normas mais elementares de biossegurança, razão pela qual o IBMA [Associação Internacional de Fabricantes de Biocontrole] e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recorreram contra a decisão da CTNBio, junto ao Conselho Nacional de Biossegurança.”
No artigo “Avaliação de riscos dos organismos geneticamente modificados“, publicado na Ciência e Saúde Coletiva, os pesquisadores Thadeu Estevam Moreira Maramaldo Costa, Aline Peçanha Muzy Dias, Érica Miranda Damasio Scheidegger e Victor Augustus Marin, enfatizaram que a Comissão nacional de Biotecnologia (CTN-Bio), deveria tomar medidas mais enérgicas e cobrar, de toda e qualquer empresa ou instituição que desejasse produzir e/ou reproduzir transgênicos, estudos de análise de risco tanto para a saúde humana quanto para o ambiente, fazendo valer também o Código de Defesa do Consumidor e o Decreto nº 4.680, de 24 de abril de 2003. Um fato preocupante, já que ainda hoje isso não é prática comum.
Entre os impactos dos transgênicos também estão as toxinas produzidas, que podem causar danos a organismos benéficos como as abelhas, e a perda de variedade genética, decorrente do fluxo gênico. Isso foi confirmado pelo engenheiro agrônomo, cientista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-membro da Comissão Nacional de Biotecnologia (CTN-Bio), Rubens Nodari em entrevista à jornalista Laís Araújo.
Já foi apontado também que ocorre aumento da contaminação das variedades não transgênicas pelas transgênicas, causando a erosão genética. A constituição genética que estão nas variedades crioulas pode ser perdida.
Em 2016, o pesquisador Rinaldo Vieira da Silva Júnior, do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imeecc) da Unicamp, alertou na reportagem “Transgênicos podem oferecer riscos para a biodiversidade”, publicado pelo jornal da Unicamp, que no caso da coexistência de dois tipos de lavouras, a produtividade das duas deve cair, mas o maior prejuízo recai sobre a planta natural.
OGMs também favorecem o aumento do uso de agrotóxicos e podem comprometer de forma significativa a biodiversidade e a saúde da população nos países onde são produzidos. Minha intenção não é demonizar os transgênicos, mas esses questionamentos e dúvidas deixam claro que ainda não há o que exaltar ou comemorar. Por enquanto, há muitos estudos conflitantes e discordantes sobre o tema, e a população precisa ficar atenta ao desenvolvimento, benefícios, malefícios e consequências dos transgênicos.
Além das controvérsias envolvendo produção, consumo e impacto ambiental, outro ponto a se considerar é o viés econômico da produção de organismos geneticamente modificados, já que o pagamento de royalties é uma das consequências do plantio de sementes transgênicas, mas não é a única – o que foi registrado pela Fundação Heinrich Böll. O agricultor que planta sementes transgênicas fica vinculado, por meio de um contrato, à empresa dona da patente da semente.
Embora os transgênicos, que surgiram em 1973, sejam apresentados como uma das soluções para resolver o problema da fome em países em desenvolvimento, outros estudos também já destacaram que os transgênicos se inserem em uma chamada “evolução” do modelo da Revolução Verde – também relatado pela engenheira agrônoma Flavia Londres em seu artigo “Transgênicos no Brasil: as verdadeiras consequências“, publicado pela Unicamp.
E hoje os OGMs são caracterizados por extensos monocultivos altamente tecnificados, que têm levado, em todo o mundo, à concentração de terras e à expulsão dos pequenos agricultores do campo. Agora vamos analisar uma realidade mais atual. Só em 2018 cerca de 820 milhões de pessoas passaram fome no planeta; um total equivalente às populações do Brasil, Estados Unidos, Rússia, Canadá e Alemanha. A fome no mundo prossegue em níveis alarmantes, mesmo 46 anos depois da criação dos transgênicos.
Após considerar outros pontos já elencados sobre o impacto dos transgênicos, será que realmente devemos acreditar nesses produtos como solução para esse problema? Ou será que foram criados simplesmente com a mesma finalidade de outros produtos, que é ampliar o lucro na cadeia produtiva em menor período de tempo, beneficiando grandes produções e sacrificando valores já sucateados nas nossas relações de consumo?
Saiba Mais
Alimentos transgênicos ou geneticamente modificados são produzidos a partir de organismo que sofreram alterações no DNA através de técnicas de engenharia genética.
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David, seria interessante fazer referência aos estudos e publicações científicas que embasam as afirmações do texto. Fica mais "verificável " pelos céticos...
Mila, obrigado pela observação - incluí agora algumas referências.