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OMS pode prejudicar animais silvestres ao promover a tradicional medicina chinesa

Que destino os animais silvestres já ameaçados de extinção pela MTC podem esperar? (Fotos: Getty/WWF/Shutterstock)

Na última versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), a Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu pela primeira vez “medicamentos” que fazem parte da medicina tradicional chinesa (MTC).

O problema é que no desenvolvimento desses “remédios” são utilizadas partes de animais silvestres – o que ajuda a financiar e a estimular o comércio e tráfico de animais, incluindo espécies ameaçadas de extinção como o pangolim.

Considerada a maior vítima do tráfico de animais silvestres, somente nos últimos 18 anos mais de um milhão de pangolins foram mortos por caçadores. As oito espécies de pangolins, animal pré-histórico que vive na Terra há mais de 80 milhões de anos, são muito visadas comercialmente porque suas escamas, que contêm queratina, a mesma proteína encontrada no chifre dos rinocerontes e nas unhas humanas, são usadas na MTC.

Na busca por ingredientes de origem animal a medicina chinesa também afeta tigres, rinocerontes, ursos-negros, cervos-almiscarados, cavalos-marinhos e focas. No total, são 36 espécies de animais e cerca de mil plantas utilizadas na MTC, segundo informações do Advocacy for Animals, da Encyclopædia Britannica.

Embora a medicina tradicional chinesa seja realizada há mais de dois mil anos, ainda assim os dados que apoiam a sua suposta eficácia são classificados como insatisfatórios. E acredita-se que a OMS tenha incluído a MTC na nova classificação estatística mais pelo apelo global alcançado nas últimas décadas com a sua popularização do que por dados consistentes sobre os métodos e recursos utilizados.

Porém, a preocupação subsiste no fato de que a OMS é a organização que estabelece normas e padrões que influenciam tratamentos médicos em mais de 100 países. Sobre isso, a Scientific American publicou em abril que pesquisadores da Universidade de Maryland concluíram, depois de avaliar 70 artigos de revisão sobre a MTC, que os dados são insignificantes ou não atendem aos padrões de avaliação.

“Dar crédito a tratamentos que não cumpriram esses padrões aumentará seu uso, mas também diminuirá a credibilidade da OMS. […] Embora seja uma boa ideia catalogar a MTC e conscientizar os profissionais de saúde sobre os tratamentos usados ​​por milhões, sua inclusão na CDI equivale de forma imprudente a medicamentos que foram submetidos a testes clínicos”, aponta a publicação.

A Scientific American também chama a atenção para os impactos ambientais, contribuição à destruição dos ecossistemas e aumento do comércio ilegal de animais selvagens a partir do endosso da OMS. Vale lembrar que em outubro de 2018, a China anunciou que estava regulamentando o “comércio controlado” de chifres de rinocerontes e ossos de tigres. E com a promoção da OMS, que destino os animais silvestres já ameaçados de extinção, inclusive no continente africano, que se tornou bastante visado por fornecedores de matéria-prima para a MTC, podem esperar?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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