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ONG diz que pecuária industrial é a verdadeira culpada pelas mudanças climáticas

Foto: Fábio Nascimento

A organização Proteção Animal Mundial declarou na semana passada que a pecuária industrial é a verdadeira culpada pelas mudanças climáticas. “Com o impacto climático das grandes empresas de carne e laticínios agora superando o de várias nações desenvolvidas, não há maior ameaça ao futuro de nosso planeta do que a expansão da pecuária industrial”, afirmou a entidade.

“É a pecuária industrial que destrói as florestas para dar lugar às plantações destinadas à alimentação animal, liberando carbono na atmosfera. É a pecuária industrial que destrói os habitats da vida selvagem, desloca comunidades locais e lucra com o tratamento cruel de bilhões de animais de criação a cada ano.”

A ONG também chama atenção para o fato de que combustíveis fósseis são usados na produção dos fertilizantes mais usados em lavouras destinadas à nutrição de animais usados na pecuária. “Esses fertilizantes liberam na atmosfera nocivos gases de efeito estufa de óxido nitroso.”

A situação é classificada como preocupante porque a demanda por carne está aumentando, favorecendo uma grande expansão da pecuária industrial. “Em 1970, a produção global de carne bovina era aproximadamente igual à de frango e carne de porco somadas. Com o crescimento da pecuária industrial, estima-se que os animais de criação mais intensiva – frangos e suínos – sejam produzidos em níveis três vezes superiores aos de carne bovina até 2050”, alerta.

“Isso não significa apenas maior impacto climático, mas também bilhões de novos animais de criação condenados a uma vida de sofrimento.”

Bactérias multirresistentes e sistema alimentar

A entidade cita que para que os animais suportem as más condições de confinamento, eles recebem diariamente uma dosagem de antibióticos em sua ração ou água. “Essa é uma prática arriscada, que cria o ambiente ideal para o surgimento de bactérias multirresistentes e sua transmissão para os seres humanos através da cadeia alimentar ou de nosso meio ambiente.”

Outro problema é que a criação de animais em sistema intensivo, o que significa também aglomeração, facilita o desenvolvimento de problemas pulmonares em consequência de altos níveis de amônia. “E o esterco espalhado nos campos libera mais gases de efeito estufa de óxido nitroso para a atmosfera, além de poluir os cursos de água.”

Segundo a entidade, os formuladores de políticas devem mirar a pecuária industrial se o objetivo é conter as mudanças climáticas.

“As grandes empresas de pecuária industrial continuam controlando nosso sistema alimentar devido a políticas governamentais mal orientadas que confundem pecuária industrial com segurança alimentar.”

Para a entidade, o grande volume de carne fornecido pela pecuária representa um paradoxo. “A segurança alimentar é minada, à medida que a terra é desviada para o cultivo destinado a alimentar animais em vez de humanos. Em 50 anos, a produção de soja cresceu o dobro da taxa de aumento da população humana”, aponta.

Pequenas mudanças e greenwashing

A Proteção Animal Mundial acrescenta que atualmente, mais de três quartos (77%) da soja global é fornecida a animais de criação, e não utilizada para alimentação humana.

“Os animais selvagens padecem, tem mortes agonizantes devido a secas, inundações e incêndios com maior frequência e severidade. Os animais se tornam menos resistentes a doenças e à destruição do habitat devido à expansão para produção de ração animal, aumentando o risco de disseminação de doenças dos animais para os seres humanos. Há um forte risco de que a pecuária intensiva provoque a próxima pandemia.”

A entidade avalia que pequenas mudanças não resolvem o problema enquanto a produção de carne continua crescendo de forma acentuada. “Não há como contornar a natureza intensiva em carbono inerente à pecuária industrial, incluindo sua dependência do comércio global de ração animal”, frisa.

“As empresas também estão comprando o cumprimento de suas obrigações, calculando seus impactos climáticos e pagando para ‘compensar’ os danos através de esquemas que removem carbono da atmosfera, como o plantio de árvores. Isso não é nada mais do que uma lavagem verde (greewahsing), e a ironia é que, com a destinação da terra à produção de alimentos para os animais de produção, resta pouca terra para reflorestar. É evidente que a pecuária industrial está ganhando, enquanto nosso clima e nossa vida selvagem perdem.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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