No filme “Vampira humanista procura suicida voluntário”, de Ariane Louis-Seize, Sasha (Sara Montpetit) é uma vampira que é incapaz não apenas de matar um ser humano como de atacá-lo para se alimentar. Sasha, que demonstra uma aversão à violência, se alimenta das bolsas de sangue obtidas por meio da “caça” praticada por seu pai.
Ainda que o ato de se alimentar do sangue humano seja colocado como uma necessidade no contexto da protagonista, seu exemplo, carregado de sensibilidade e gentileza, também nos permite refletir sobre a dissonância cognitiva (termo que surge com a teoria de Leon Festinger) e a desconexão moral (termo que surge com a teoria de Albert Bandura) no ato de consumir carne, enfim, de se alimentar de animais.
O problema maior para Sasha está em participar diretamente da violência, em ser um agente ativo inescapável de sua afirmação pelo que é sua concretização. A maioria das pessoas que se alimenta de animais também não precisa considerar a violência nem pensar que participam dela. Assim, também não precisam reconhecer que há violência nas relações de consumo.
O mecanismo mental que permite que Sasha se alimente do sangue, que no filme é associado ao ato de matar, é o mesmo que permite que muitos humanos se alimentem de carne. Mas se Sasha tem um dilema moral que entra em conflito com a conclusão de necessidade, já que no filme é colocado que ela morrerá se não se alimentar de humanos, essa necessidade é menos axiomática no mundo real em relação aos animais reduzidos a alimentos. Logo, temos um “axioma biológico” e um “axioma cultural” (tratado como biológico).
O ato de comê-los, se ganha uma conclusão de necessidade, não é porque realmente existe uma necessidade – e sim, como podemos perceber a partir dos mecanismos do habitus (Bourdieu), que um hábito internalizado culturalmente pode se transfigurar em necessidade sem sê-lo, apenas pelo que é culturalmente legitimado. Portanto, eleva-se um hábito à necessidade pelo costume, pela criação de valores em associação que impeçam que ele seja desestabilizado.
Ao conhecer Paul (Félix-Antoine Bénard) em um grupo de apoio para pessoas com ideações suicidas, e a afirmação dele de que seu desejo de morrer é um sentimento que sempre existiu de inadequação e estranhamento em relação ao mundo, ele se oferece como alimento para Sasha.
Isso nos permite um paralelo com o chamado “abate humanitário”, baseado na afirmação de que “é uma forma de matar animais sem fazê-los sofrer”. Sasha reconhece que se “há um consentimento” e isso permitirá que ela continue vivendo, então “a disposição voluntária” de Paul pode ser a solução. No entanto, ainda que o “abate humanitário” nos matadouros seja tratado como aceitável, não deixa de ser uma forma de matar quem não quer morrer.
Também ignora que o sofrimento não está somente no momento de matá-lo, mas também no que o precede. E mais, pensa-se o “abate humanitário” como se houvesse um tipo de consentimento não declarado do animal; o que, na realidade, não faz o menor sentido.
Na história, com o consentimento de Paul, Sasha diz que gostaria de realizar o último desejo dele. Se paralelizamos isso com a realidade dos animais enviados para abate, podemos nos perguntar se é moral, por exemplo, alegar que se proporcionou o melhor para um animal porque ele seria morto com um fim que não em si mesmo.
A ausência de pânico imediato em um animal no matadouro não é uma “inação de que está tudo bem”, mas uma inação (ausência de grito ou de se debater) porque tiraram do animal a capacidade natural de reagir àquela experiência. Afinal, o animal continua ali, numa suspensão de privação do próprio ser; até que não reste nada.
Então a neutralização não torna o ato “melhor”, mas concretiza um apagamento do que sobre essa experiência é intrínseco à própria e inegável violência. É preservar a violência concentrando a reação do animal em seu interior – impedindo que seja uma expressão exterior. Assim, o que ocorre não é algo ético, mas uma sofisticação técnica da dominação. É destruí-lo por implosão. Isso não remove o medo ou o estresse; remove a possibilidade de expressá-los. É uma violência sobre a violência. Ele é reduzido a um corpo passivo à espera da morte, sobre o qual não pode mais exercer nenhum controle.
Quando Sasha busca realizar o desejo de Paul, isso também atua para retirar o sentido de violência do ato posterior que será se alimentar dele. É outro ponto que podemos conectar à prática do “abate humanitário”. Mas, no fim, Paul não será reduzido a um fim que não em si mesmo. Portanto, a dissonância cognitiva e a desconexão moral não prevalecem, diferentemente do que continua ocorrendo o tempo todo com tantos animais com base na invenção da necessidade de se alimentar deles como parte do habitus.
O filme está disponível na Netflix.
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