Categorias: Pequenas Narrativas

Os animais que vemos são os animais que não vemos

Foto: Toronto Cow Save

Vi seu corpo como meu corpo e meu corpo como seu corpo. Nossas consciências transitando por duas matérias, e a forma definindo qual seria comida. Quando não é definida?

Quando dizem que um corpo é forma de consciência mais evoluída. Então as consciências involuídas são destruídas, porque a evolução também é meio para definir os termos da destruição.

Mas até que ponto essas ações são exemplos de evolução? Mesmo quando desta a moral é vítima sequente de obliteração. Se vivesse no seu corpo com minha consciência, quem diria ou saberia?

Imagino-me vivendo como vive, expressando-me como se expressa, conhecendo os ausentes limites da sua indignidade, e sofrendo no silêncio de mim mesmo, que é silêncio imposto.

Porque não importando o que sai de minha boca, ou sons que crio com meus movimentos, não os condicionados, o que se vê não é expressão, não que não seja, é, e muito é; mas a expressão do ser, sua sublevação diversa, sonora ou não, é como criação irrelevante quando nada se reconhece sobre a gravidade do que é.

Ao enxergar sua dor, que tomei para mim, percebi como você queria fugir de seu corpo, porque estando nele e sendo a vida que o move, as reações são expulsivas. Como não seriam? Só deixamos de tentar repelir o mal que nos aflige quando nossas forças são tiradas de nós.

O que você poderia fazer tendo a consciência afugentada por expressão que é subestimada e reputada como inexpressão ou aceitação? Num exercício, transferi-me para seu corpo, não o todo que sou, mas minha consciência e alguns atributos memoriais.

Você saiu e deixou-me experimentar sua realidade, não que tivesse dito algo, só não ablegou minha presença. Em meu corpo, viu o que não viu e no seu vi o que não vi, e senti. O que você sentiu? Em matérias trocadas, minha reação era a sua, e ninguém conhecia o corpo que me abrigava, e assim seria até exaurir toda a vitalidade.

Pensei nos espaços que albergam a consciência e em como podem ser muito ou pouco ajustáveis. Talvez uma questão de maleabilidade? No meu corpo, imagino que ninguém quis matar-te naquele lugar. Sua consciência não humana mantinha-se intacta. E você me via e eu te via, até não podermos mais.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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