Categorias: Contos e Crônicas

Para onde vai o bezerro?

Pintura: Hartmut Kiewert

Para onde vai o bezerro? – martelava na mente. Viu o caminhãozinho transportando o pequeno numa carroceria de madeira. Olhos grandes passeavam pela rodovia. Narinas? Encaixavam entre duas madeiras de entrada/saída que tremulavam. Talvez fizesse cócegas ou nem percebeu.

Não havia indicativo de destino – placa era da cidade recém-deixada. Pra onde então? – só pensava nisso, acompanhando o bezerro, no acaso do carro de trás. Intenção não era seguir. Acompanharia somente até onde desse, e de lá seguiria seu destino, e o pequeno o dele. E era dele?

Mas e a curiosidade, a dúvida, a incerteza que nem definiria como incerteza? Como um bezerro pode ser transportado em um caminhão sem aviso em letras garrafais que possa ser lido por todo mundo? Por que não uma lei que exigisse algo como um letreiro eletrônico? Imagine à noite…

“Atenção, bezerro a caminho do descarte.” “Atenção, bezerro separado da mãe.” “Atenção, bezerro problemático que será sacrificado.” “Atenção, bezerro que será criado para ser morto daqui a pouco.”

Discorda dos termos usados para definir a idade de abate dum animal, como se a maioria não vivesse só um pingo. Passou a definir tudo como “daqui a pouco”, porque é assim que termina a vida não humana que vira alguma coisa, na metuenda multiplicidade, para consumo. Dias, semanas, meses e primeiros anos – são sempre daqui a pouco.

Animais do campo têm destinos estranhos, e as pessoas que passam por eles merecem saber – repetiu. Merecem não, devem, até para não borboletear – corrigiu. E se aquele bezerro tiver um destino diferente?

Sabia que era só ideação, mas por que não? Por que não pode haver esperança pra todo mundo, ainda que todo mundo seja o um de um mundo? Por que ignorar os precedentes e suas ensombradas continuidades? Talvez o bezerro tenha sido resgatado de situação de perigo ou violência e está a caminho dum bom lugar, sem exploração.

No que devo pensar? – continuou. Desejou o melhor e, quando o caminhão virou para onde ele já não iria, olhou o bezerro pela última vez. Não sabe para onde foi, mas sabe para onde ele poderia ir – para onde nossa vontade for.

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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