Depois de muito esforço, quando conseguiu tirá-lo da água (Foto: Pixabay)

Um homem pescava às margens do Rio Paraná quando um menino se aproximou. Não dizia nada, só observava, acompanhando o anzol. Mais de uma hora depois, continuava assistindo o pescador insistindo na captura de um peixe.

Quando já estava cansando, o homem sentiu uma fisgada e puxou a vara com cuidado, sem fazer muita força, pra confirmar se não era ilusão da insolação. Havia um dourado preso ao anzol, e lutava para se livrar da situação.

Usava o corpo todo. Se retorcia com tanta força que a cauda quase encostava na boca perfurada pelo gancho metálico. “Hoje você é meu, é sim, você é meu…”

Depois de muito esforço, quando conseguiu tirá-lo da água, o lançando em um pedaço de lona sobre uma porção descampada, o peixe se debatia e movia a cauda; e não só ele, o menino também.

Sangue escorria pela boca da criança – os olhos foram perdendo o viço e já não conseguia respirar. Segurava a própria garganta e rolava de um lado para o outro na terra.

Desesperado, se jogou no Rio Paraná. O pescador pulou logo atrás e, o puxando pelos cabelos, conseguiu levá-lo de volta à superfície. Engoliu um pouco de água, mas parecia bem.

Olhou em volta por instante e partiu sem dizer palavra enquanto o pescador procurava o dourado em vão.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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