Categorias: Opinião

Pintinhos nascem somente para morrer

Foto: Andrew Skowron

De repente, surge uma vida, uma pequena criatura saudável, em forma que pode inspirar ideia de perfeição. Seus olhos, suas penas, seus pés, seu bico, sua curiosidade. A sexagem revela que é macho.

A vida que existe no corpo não é motivo de continuidade. Se manifesta algum tipo de vontade, isso não é determinante. É separado e transferido para uma caixa de descarte.

Junta-se a muitos outros, que chegam e partem como se nunca tivessem chegado. Não existe nada de errado com a sua saúde, mas a não vida é decidida pela sua indesejada biologia.

Então os olhos, as penas, os pés, o bico e sua curiosidade, e tudo o que pode ser tão objetivo quanto simbólico de sua passadiça condição, são reduzidos a algo, já na ausência do alguém, completamente diferente.

O animal recém-chegado desaparece. Qual foi sua percepção do mundo? De repente, o nascimento, o toque, o amontoamento e o fim. É um trânsito estranho e acelerado da vida à morte.

O que é ser um filho e um recém-nascido para um pintinho macho na indústria de ovos? Sobre isso, penso no que escreveu Percy Shelley no século 19, quando declarou que “seria muito melhor a um ser senciente jamais ter existido do que existir simplesmente para suportar a miséria absoluta”.

Ainda que a passagem de um pintinho macho nesse contexto seja das mais breves da subjugação animal, por sua destruição pós-nascimento a partir do nosso sistema alimentar, se pondero que a todo momento há pintinhos experimentando essa realidade, o seu fim então é uma continuidade.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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