No supermercado tirou um frango do freezer e removeu as cascas de gelo com as pontas dos dedos. “Quantos corpos gelados acondicionados, e vão um sobre o outro, caem de lado, voltam pra cá, vão pra lá e alternam posições que resultam de apertos, elevações, empurrões e coisas mais…”
Ficou intrigada com a maneira como tantos olhos miram somente preço e peso, destacado na altura do peito. “Costume é um desviante.” Plástico tão grudado no corpo sem vida que em vista menos fatalista despertou-lhe agonia. “Não há vida, claro, mas penso em asfixia. Uma criatura que está ali sem estar.”
Observar o corpo de um animal nascido há menos de mês e meio fez pulular ideia diversa de fragilidade, de subtração de precocidade.
“Então era um pintinho que piava como todo pequeno galináceo cheio de energia, de disposição. Hoje já está aqui, submetido à ausência de si mesmo. Como a juventude é apreciada à mesa…”
De repente, sentiu as mãos molhadas e percebeu líquido gomoso nas palmas, ameaçando pingar entre os vãos. “As rugas do frango e a incitação de expressão de seu corpo despertou em mim percepção de achatamento, encolhimento. Vi um animal dobrado sobre sua própria inexistência. Não é assim que terminam todos?”
A disposição dos membros e os poros, que revelavam-se maiores do que são, pareciam tão antinaturais sem penas. “Tive vontade de devolver-lhe a própria cobertura, que era também sua proteção e identificação. Mas ali já não havia ninguém, porque raro se pensa no alguém…”
Um consumidor jogou três ou quatro dentro do carrinho – em posições invertidas. Gelo escorria por baixo e ela pensou na vida que se esvaía. “E a ausência de cabeça?”
Moveu alguns frangos de lugar e avaliou as marcas da decapitação. “Preferem seus animais decapitados – predileção com efeito imediato de superficialização.”
O freezer estava quase vazio quando chegou um repositor para enchê-lo. “São mais novos do que aqueles”, ouviu e pensou no fim de menos de mês e meio. “E já parece muito neste mundo de desejos decepantes…”
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