Se observamos no açougue ou no supermercado um animal morto, o desejamos em nosso prato, mas se o mesmo animal é encontrado morto fora de um espaço reconhecido como institucionalizado, é possível que os passantes lamentem por seu fim ou manifestem nojo.
São duas reações que podem estar deslocadas da mesma motivação – a primeira sobre a percepção entre criatura viva/morta, em transição para o fim, e a segunda somente sobre a criatura morta.
Ou seja, como isso gera em mim incômodo por tudo que seu corpo sem vida desperta em relação às sensações – logo é sobre o meu homocentrismo e o meu processo de condicionamento, embora o primeiro também seja, mas em menor intensidade, ainda que restrinja-se a uma reação momentânea.
Então chamo atenção para o seu corpo morto, em um espaço “ilegitimado”, logo visto como reprovável, inaceitável, não pelo seu fim, e sim pela contextualidade.
“Coitado! Quem fez isso?”, pode-se perguntar, ainda que do lado de lá chegue um caminhão “descarregando” animais, enfim, como “cargas” – substantivo que tanto usamos também para referenciar o que é reduzido à condição de “produto que [ainda] se move”.
O animal lamentado do lado de cá atrai atenção, o do lado de lá, descendo para a morte, não. Se conduzo seu corpo até o matadouro a percepção muda porque é um “animal que está onde deveria estar”.
A normalização das práticas de consumo determina o “ambiente adequado”. Isso significa que o animal deve morrer. O que ele não deve “é morrer fora das determinações/condições institucionais de consumo”.
Então nessas circunstâncias externalizamos instâncias de supremacismo humano que são também sobre o que consideramos “seguro” e, mesmo quando dizemos que é sobre os animais, não é primeiro sobre servir à nossa consciência e à percepção que temos de nós mesmos?
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