Quando vi arrastarem um bezerro pela perna, e o animal olhando em direção à lente da câmera que registrava o seu momento de privação de familiaridade, notei que quem o arrastava não o observava.
Será que só naquele momento? Para mim, isso não é o mais relevante, e sim o que representa o arrastar simultâneo ao não olhar. Independente de duração, o que isso significa? Não imagino que todos teriam o mesmo olhar diante dessa situação.
O animal então era um bebê de outra espécie, e logo me questionei como as pessoas reagiriam se alguém arrastasse um bebê humano por uma perna e sem olhar para trás, sem se importar não apenas com o ato, mas também com a reação de quem é arrastado.
Sobre o bebê humano, o choque seria imenso, e sobre o bebê não humano, o choque é comumente ausência. As justificativas envolvem sua composição corporal, o ser não humano. O supremacismo determina que a anatomia estabelece a aceitabilidade do que pode-se impor ao corpo, e que nesse caso não é “só” sobre o corpo, mas sobre não ser um corpo humano.
O não olhar para o bezerro arrastado reverbera dominância, indiferença que resulta da naturalização que anui a coisificação. Assim agressões são elevadas ao comum pelo não reconhecimento da agressão. Claro, podemos culpar o homem que arrasta o bezerro, os funcionários que o observam, o pecuarista que, a partir daquela propriedade, fornece leite aos laticínios.
Logo podemos assingelar e superficializar responsabilidades, ignorar que o ato de arrastar o bezerro, de não observá-lo, não é sobre um homem, uma propriedade, e sim sobre o estado coisificado de quem é puxado pelo pé.
Sem a coisificação do indivíduo não humano, o que permitiria que arrastá-lo fosse um ato aceitável? Percebo-o a partir de sua imagem de sujeito imperado como representação simbólica de uma condição que é sobre sujeição, mas não somente sobre um sujeito.
A pergunta então não pode ser outra: “O que a partir de nós favorece essa ação?” É possível que encontremos respostas no refrigerador e em nosso hálito.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…